Artigo Original - Ano 2019 - Volume 36 - Edição 111

Narrativas gráficas sobre família por crianças matriculadas em uma escola de atendimento especializado

RESUMO

A criança se expressa de maneira pluralizada, de maneira verbal e não verbal. O desenho é uma das formas de expressão e possibilita, em especial, o uso de um método adequado de interpretação. Vários pesquisadores dedicaram-se ao estudo do desenho infantil, entretanto, são incipientes temas específicos para a interpretação de desenhos de crianças com deficiências e transtornos mentais. Através das narrativas gráficas pretendeu-se focar na compreensão do olhar da criança para a família. Os desenhos das crianças são parte da oficina Café & Prosa, realizada numa escola de atendimento especializado. A pesquisa teve objetivo de mostrar, a partir das narrativas gráficas, como as crianças apresentam a família e como projetam os sujeitos com os quais convivem. Obtiveram-se, através da interpretação das narrativas gráficas, temas sobre a presença e ausência da mãe ou do pai; a substituição do pai por avós, tios, namorados da mãe; animais de estimação. Todos os desenhos apresentados foram confeccionados por crianças com algum problema de ordem mental ou deficiências em fases distintas. É fato que as crianças, sejam "normais" ou com deficiências, conseguem expressar e narrar, graficamente, suas histórias e seus contextos particulares. Criar narrativas gráficas poetiza o dia a dia, ressignifica as atividades diárias, incorpora novos significados e sentidos para a vida.

Palavras-chave: Criança. Desenhos. Inclusão. Educação Especial. Família.

ABSTRACT

The child expresses himself in a pluralized, in a verbal and non-verbal way, in which the drawings assume, in particular, an adequate method of interpretation. Several researchers dedicated to the study of children's design, however, is incipient specific themes for the interpretation of drawings of children with mental problems or multiple disabilities. Through the graphic narratives it was intended to focus on the understanding of the child's and family's gaze. The drawings of the children are part of the Café & Prosa workshop, held in a specialized service school. The research had the objective of presenting, from the graphic narratives, how the children present the family and how they project the subjects with whom they coexist. By the interpretation of graphic narratives, themes about the presence and absence of the mother or father were obtained; the replacement of the father by grandparents, uncles, mother's boyfriends; pets. All drawings presented were made by children with some mental problem or deficiency in their development and at different stages. It is a fact that children, being "normal" or carrying some disorder or disability, can express and narrate, graphically, their stories and their particular contexts. To create graphical narratives poetizes the day to day, resignifies the daily activities, incorporates new meanings for the life.

Keywords: Child. Drawings. Inclusion. Special Education. Family.


INTRODUÇÃO

A criança consegue entender e interpretar seu contexto de vida em diferentes eventos. A voz da criança é compreendida como revelação dos sentimentos, das percepções, das representações sociais; as crianças projetam em suas representações e leituras de mundo através de imagens e formas conceituais, que são relevantes para a reflexão e o conhecimento do mundo privado e familiar. Assim, as representações da família, foco desse trabalho, feitas pelas crianças trazem possibilidades de interpretação.

A criança se expressa de maneira pluralizada, de maneira verbal e não verbal. Seus desenhos possibilitam, em especial, o uso de um método adequado de interpretação. Sarmento & Trevisan1 propõem analisar e interpretar os desenhos enquanto narrativas gráficas. Tal conceito não é importante somente porque revela que os desenhos das crianças narram uma história, mas pelo fato de ser resultado da imaginação transformadora do real que a criança significa através de linhas ou de cores que expressa e inscreve no papel, em telas, etc.

Portanto, um simples desenho passa a ser uma linguagem, um código de grande potencial expressivo e comunicacional1:

As metodologias visuais nos estudos da criança encontram no conceito de narrativa gráfica um importante recurso, na medida em que ele favorece a hermenêutica das formas culturais de constituição das crianças como sujeitos de cultura e atores sociais (Sarmento & Trevisan1, p. 5).

Apesar das narrativas gráficas serem sempre acompanhadas de processos de verbalização, a comunicação e expressividade das crianças não dependem da verbalização e a interpretação dos desenhos infantis, quando organizadas as condições subjetivas e objetivas da produção, pode ser feita, com controle dos riscos de ambiguidade, na hipótese de que qualquer ação de expressão e comunicação é pluralizada e, portanto, passível de várias interpretações1.

Entende-se que interpretar a expressividade das crianças sobre uma família através de desenhos contribuirá para um olhar voltado, especificamente, para a percepção infantil e menos enviesado pelo olhar adulto.

Quanto à interpretação e veracidade dos discursos, vale sublinhar:

A interpretação das narrativas gráficas deve considerar o contexto social de emergência, os sentidos explícitos, os elementos formais e suas gramáticas (códigos de cores, figuras, traços identitários etc.), mas também o que é apenas sugerido. Há uma inerente ambiguidade, própria da linguagem plástica, que tem elementos evocativos e não se reduzem à transposição mimética de formas da realidade. A impossibilidade de um "discurso da verdade" sobre os desenhos infantis não inibe as possibilidades explicativas, que se devem articular continuamente com outros dados de investigação, numa perspectiva de triangulação (Sarmento & Trevisan1, p. 7-8).

Os desenhos das crianças apresentados nesse trabalho são parte da oficina Café & Prosa, realizada numa escola de atendimento especializado da cidade de Passos/MG. O projeto teve como principal objetivo criar espaços de fala, escuta e reflexões acerca do conceito de família trazido pelas crianças matriculadas em uma Escola de Atendimento Especializado.

O desenvolvimento do projeto envolve diretamente a participação dos pais de criança em processo de diagnóstico ou diagnosticada com algum transtorno mental (TM) ou deficiência intelectual (DI). O projeto visa dar resposta a um, dentre vários problemas identificados no processo de diagnóstico de TM/DI de uma criança, que traz repercussões emocionais, sociais e econômicas para todos os membros da família. Em seu processo de aceitação e adaptação, pais e mães lidam com a nova condição do filho de maneira diferenciada, em ritmos e percursos diversos, sem estar alheios aos papéis e estereótipos relacionados com as diferenças de gênero. Comumente, as mães assumem o papel de cuidadoras e os pais de provedores.

Neste texto, analisaram-se apenas os desenhos feitos pelas crianças, para quem foi pedido que desenhassem "uma família". Optou-se por usar o termo "uma família" e não "sua família"/ "minha família" para que a criança não se sentisse pressionada e pudesse dispor de liberdade e autonomia para desvelar sua verdade e seus sentimentos.

É incontestável que a família exerce um papel muito importante na vida da criança, tanto no desenvolvimento saudável quanto no aparecimento das psicopatologias2.

Nesse trabalho focou-se no olhar da criança e o significado que ela atribui à família. Compreende-se que as narrativas gráficas contribuem para reflexões e discussões acerca da inter-relação da criança na escola, no ciclo de amigos, na família.

A intenção desse trabalho não foi realizar um estudo profundo sobre a família, mas apresentar, a partir das narrativas gráficas, como as crianças avaliadas apresentam a família e como projetam os sujeitos com os quais convivem.

 

MÉTODO

Durante a atividade Prosa & Café proposta na instituição, juntamente aos pais, as crianças foram convidadas a fazer um desenho sobre a família. Conforme a aprovação deste projeto, pela instituição, nos desenhos não foram identificados nomes das crianças, de pais ou de professores.

Interpretar um desenho infantil é um motivo de preocupação para alguns autores, como Lowenfeld3, que sugere que os adultos ofereçam um ambiente externo tranquilo, que não ofereçam outros desenhos para servir de modelo, ou qualquer outro tipo de figura que possa ser copiada. Por isso, um ambiente isento de influências propicia expressões livres e narrativas gráficas totalmente espontâneas.

A escolha de materiais somente dos filhos de pais participantes e presentes no evento Prosa & Café deveu-se pelo fato de escolher o estudo de caso como percurso metodológico, pois, desta forma, seria possível trazer reflexões e discussões do todo e não unicamente do caso estudado.

[...] metodologicamente isso implica, por um lado, complementar a informação de campo com informação relativa a outras ordens sociais (por exemplo, a estrutura política e educacional do país) e, por outro lado, buscar interpretações e explicações a partir de elementos externos à situação particular. Deste modo, não se realizam estudos de casos, mas estudos sobre casos. (Ezpeleta & Rockwell4, p. 47)

Não se deve perder de vista a articulação entre o particular e o geral. As expressões advindas das narrativas gráficas das crianças são complementadas com outros segmentos da vida social como características do bairro onde moram, brincam, estudam; características dos pais, avós, irmãos. O mundo vivido sendo conhecido5.

Participantes

Participaram do estudo 10 alunos matriculados em uma escola de atendimento especializado. Foram convidados através de colaboradores do evento Prosa & Café para fazer um desenho livre sobre a família. Como critério de inclusão, optou-se por crianças até 12 anos e que estivesse matriculada regularmente na instituição e que os pais estivessem participando do evento concomitantemente. O critério de exclusão foi crianças incapacitadas de expressão com lápis e papel.

Instrumento

Para acessar as concepções de família das crianças, utilizou-se a representação gráfica no formato de desenhos das crianças sobre o que, na sua percepção, representava a família. Foram entregues a cada criança duas folhas de papel sulfite, lápis de cor e lápis de cera.

Procedimentos de coleta de dados

A pesquisa teve início após contato com a Escola, a concordância da mesma em permitir a pesquisa e a indicação do espaço para a atividade de desenho. Pelo fato de não apresentar qualquer informação pessoal da criança, o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e o Termo de Assentimento foram dispensados, considerando suficiente o Termo de Aceite, assinado pela direção da escola para a realização do evento Prosa & Café e a atividade de desenho, concomitantemente.

Os desenhos produzidos pelas crianças foram tratados a partir de análise para identificar desenhos com conteúdos próximos. Após a identificação do conteúdo, eles foram agrupados em categorias de acordo com a proximidade dos conteúdos expressos nos desenhos.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Ao buscar um referencial teórico que apoiasse os objetivos desse trabalho e respondesse alguns questionamentos que despontavam no processo da pesquisa, percebeu-se incipiência sobre o tema e que sustentasse a criança "com transtornos, síndromes, deficiências, etc." como sujeito falante, informante e participante.

As crianças expressam em desenhos seus sentimentos seu contexto; porém, devem ser considerados, apenas, como uma ferramenta de auxílio e não como determinação de diagnósticos, por exemplo.

É necessário encontrar novas formas de convivência familiar em nossa sociedade atual. Se, de um lado, exigências sociais divulgam a figura de um pai provedor, de outro, as famílias buscam se organizar, trazendo o pai para o exercício do afeto e do cuidado. Emerge então uma nova figura paterna, não mais estruturada somente como provedor econômico6.

As mulheres, cada vez mais, estão ingressando no mercado de trabalho e conquistando independência econômica, e assim ocorrem novos arranjos e novas configurações familiares, com significativa mudança nas relações entre homens e mulheres, como a separação entre papéis conjugais e papéis parentais7.

Um estudo antigo8 já sinalizava que a infância não se encontra dentre as fontes eleitas como respeitáveis. Ou seja, as crianças aparecem como os mudos da História e, portanto, não ouvidas como participantes e informantes suficientemente capazes de descrever seu mundo imaginado ou vivido.

Foram selecionados para esse estudo seis figuras advindas de crianças que atendessem o objetivo do estudo e os critérios de inclusão. Ao todo, foram apresentadas 23 figuras, pois algumas crianças confeccionaram mais de um desenho.

Os desenhos

A criança usa o desenho como um jogo e faz rabiscos aleatórios, sem um significado preciso ou lógico e, após, passa a reconhecer nesses rabiscos desordenados algumas formas. Essas formas são consideradas como imitações da realidade: a criança desenha não o que vê no objeto, mas o que significa dele, o conceito que faz dele.

O desenho representa a primeira escrita e atividade lúdica da criança. A ação de rabiscar, como mostra a Figura 1, acontece quando a criança observa um adulto escrever ou desenhar e tenta imitá-lo, não para fazer igual o que o adulto fez, mas sim para fazer como o adulto fez. Essa intenção de rabiscar começa por volta dos 12 meses de vida e estende-se até os 4 anos de idade, quando a criança transita no estágio da garatuja que se divide em quatro fases: desordenada, longitudinal, circular e esquematismo9.

 


Figura 1

 

Vários pesquisadores10-12 dedicaram-se ao estudo do desenho infantil, entretanto, há incipiência para a interpretação de desenhos de crianças com TM/DI.

Comumente, o campo da Psicologia é referência básica para análise dos desenhos infantis13 e considera o desenho infantil como uma das linguagens primordiais para o desenvolvimento de pesquisas com crianças, sobretudo as que ainda não falam de maneira articulada num processo de entrevista. O desenho é apresentado como preenchedor das lacunas deixadas e revelador de formas de ver o mundo das crianças. Segundo esse autor:

Ele é um traço, um testemunho (...) É como uma janela aberta para uma terra incógnita, um continente perdido onde moramos há muito tempo e que é o domínio de seres muito enigmáticos: as crianças (Arfouilloux13, p. 12).

Na Figura 2, acima, percebe-se a delimitação e divisão familiar, cujo desenho expresso em forma de rabiscos não aparenta ter peso ou tensão. Essa fase de desenho, analisada em crianças "normais", chama-se garatuja desordenada, caracterizada pela experiência cinestésica - conjunto de sensações pelas quais se percebem os movimentos musculares14.

 


Figura 2

 

Categoria 1 - Presença do pai (Figura 3)

 


Figura 3

 

A família é uma instituição que há tempos, e na maioria das sociedades que conhecemos, é a provedora de satisfações de necessidades básicas e que também exerce grande influência na constituição dos indivíduos. Existem maneiras distintas de se definir o que é uma família e o objetivo primordial da família é a defesa da vida15, e a define como sendo:

[...] um núcleo de pessoas que convivem em determinado lugar, durante um lapso de tempo mais ou menos longo e que se acham unidas (ou não) por laços consanguíneos. Este núcleo, por seu turno, se acha relacionado com a sociedade, que lhe impõe uma cultura e ideologia particulares, bem como recebe dele influências específicas (Soifer15, p. 22)

Para Lévi-Strauss et al.16, a família:

[...]serve para designar um grupo social que possui, pelo menos, três características: 1) Tem a sua origem no casamento. 2) É formado por marido, esposa e filhos (as) nascidos do casamento, ainda que seja concebível que outros parentes encontrem o seu lugar junto ao grupo nuclear. 3) Os membros da família estão unidos por laços legais, direitos e obrigações econômicas, religiosas e de outro tipo e uma rede precisa de direitos e proibições sexuais além duma quantidade variável e diversificada de sentimentos psicológicos tais como amor, afeto, respeito, temor, etc. (Lévi-Strauss et al.16, p. 16)

Entretanto, faz-se necessário trazer reflexões sobre as novas configurações familiares na atualidade. Entende-se que existem inúmeras maneiras de organização familiar, e a família assume um importante papel no cuidado à criança com TM/DI, em especial na ressocialização, pois elas precisam de cuidados especiais devido a comprometimentos de ordem emocional, psíquica e cognitiva.

Cabe à escola (profissionais da saúde e educação) oferecer apoio e suporte aos familiares para manutenção e fortalecimento dos vínculos familiares.

Categoria 2 - Ausência e substituição do pai

A família dos tempos atuais é diferente da família nuclear, geralmente sustentada pelo homem, sendo a mulher parte do sustento do grupo familiar. As famílias se expressam de distintas maneiras, em que, muitas vezes, a figura paterna passa como imagem e as configurações dos relacionamentos mudam; as famílias monoparentais são sustentadas pela mulher; passam a existir as famílias de pais separados com a guarda compartilhada dos filhos; temos a imagem do pai avô e da mãe avó, em que os papéis da guarda da prole ficam a cargo dos avós, enquanto os pais trabalham e os papéis mostram-se indefinidos, não havendo clareza sobre o papel de cada um na dinâmica familiar17.

Na Figura 4.1 a criança replica a fala da mãe: "não sou casada e meus filhos não mantêm contato com o pai". Na Figura 4.2 a criança representa o pai de maneira diminuída e a mãe é representada de maneira oposta – no centro e tamanho engrandecido.

 


Figura 4

 

A ausência do pai pode trazer substituições também relatadas pelas crianças através de avós, tios, primos, namorados e animais domésticos, conforme relato na Figura 5.

 


Figura 5

 

Não basta ser pai, tem que participar. Essa é uma frase bastante conhecida, e as dificuldades para torná-la realidade também. A rotina do dia a dia ou a maneira como a estrutura familiar se organiza exige que os pais encarem como desafio o que deveria ser uma obrigação: tornar-se presente na vida dos filhos, em especial com filhos portadores de algum problema mental. A ausência do pai pode se transformar em culpa e gerar mais dificuldades, destacando-se o impedimento da evolução emocional, escolar e social da criança.

Na Figura 6, mesmo colorida e harmoniosa, infere-se o quanto a criança sente-se distante do pai, da mãe e da casa. O desenho revela especificidades da vida familiar, afetiva e emocional da criança, tornando extremamente relevante o processo de descoberta das dificuldades e traumas. Basta uma observação reflexiva e minuciosa das características do desenho e os profissionais, de educação e saúde, poderão ajudá-la com mais assertividade.

 


Figura 6

 

DISCUSSÃO

Sabe-se que as narrativas gráficas são formas de expressão, de pensamentos e de sentimentos primitivas. Os desenhos e a comunicação não verbalizada são pertinentes e adequados para as crianças expressarem e elaborarem processos internos daquilo que pode ser complexo de expressar verbalmente.

Alguns autores delimitam as produções de narrativas gráficas em diferentes fases:

É bom ressaltar que a evolução do desenho de uma criança está intrinsecamente ligada ao desenvolvimento da escrita e da linguagem. É nesta fase que a criança começa a fazer uma "escrita", tentando imitar a do adulto. Uma espécie de zig-zag fininho ou linhas combinadas com bolinhas (Barcellos18, p. 2).

Geralmente, a criança começa a desenhar por volta dos dois anos. Nesse período está aberta a experiências, não tem medo de se arriscar, pois o seu corpo é ação e pensamento: ela pode tocar, cheirar, pensar e experimentar com o corpo (Coleto19, p. 139).

Independentemente do meio em que vive, do seu temperamento e sua sensibilidade, todas as crianças passam pelos mesmos estágios e etapas do desenho. Ela começa a rabiscar, depois passa a desenhar objetos e pessoas, indo em direção a uma representação cada vez mais próxima do real para só então começarem a aparecer características do meio sócio-cultural em que vive (Barcellos18, p. 2).

O estudo sobre "fases" e "estágios" do desenho da criança parece não seguir a mesma lógica para crianças com problemas mentais ou deficiência intelectual. No entanto, é fato que as crianças, sejam "normais" ou com algum transtorno ou deficiência, conseguem expressar e narrar, graficamente, suas histórias e seus contextos particulares. Todos os desenhos apresentados nesse trabalho foram confeccionados por crianças que apresentam algum atraso ou deficiência em seu desenvolvimento e em fases totalmente distintas.

Os desenhos foram realizados com material elencado respectivamente pelas crianças. Com ajuda dos profissionais da educação e saúde da instituição, as crianças foram convidadas para desenhar sobre uma família. A liberdade de expressar como quisesse foi propositada, uma vez que o objetivo era observar o conceito de família na vida da criança.

Salienta-se sobre a relevância dos vínculos familiares como aspecto benéfico para o processo de desenvolvimento saudável. A família, como primeiro sistema (microssistema) no processo do desenvolvimento, é favorável e determinante para inter-relações salubres e significativas. Bronfenbrenner20 afirma que é importante que essas primeiras relações sejam de reciprocidade, trocas e afeto, contribuindo para autonomia e suporte emocional. Assim, a criança desenvolve sua autoimagem e reconhece-se como ator social a partir das relações interpessoais entendidas como significativas21.

É necessário que o desenvolvimento de habilidades em crianças com problemas mentais seja abordado de forma mais específica, buscando-se identificar os moderadores e mediadores deste processo. Esta compreensão oportuniza uma melhoria na atuação terapêutica dos diversos profissionais de saúde e educação, a orientação aos familiares que convivem diariamente com as limitações destas crianças e o ensino de novos profissionais. Tais esforços devem ser estimulados em todos os segmentos na comunidade escolar, fornecendo subsídios para fundamentar estratégias terapêuticas e educacionais.

Entende-se que a atenção específica para crianças com transtornos mentais, síndromes, deficiências – que se nominou nesse trabalho como "problemas mentais" – é cada vez mais necessária e urgente. É extremamente importante que essas crianças tenham assistência adequada, fato que se traduz como algo preocupante22, pois nem sempre profissionais da saúde identificam precocemente problemas de saúde mental na infância e tendo, também, deficiências na formação profissional.

Destaca-se, nesse sentido, um desafio teórico-conceitual, bem como clínico sobre o que vem a ser deficiência mental ou transtorno mental:

[...] deficiência mental e/ou transtorno mental não é dada a priori, de modo que pode oscilar em função do alcance que se pretende ter e da intenção com a qual se pretende fazer uso de um ou outro termo e nas muitas maneiras pelas quais a deficiência mental e/ou o transtorno mental podem incidir sobre crianças e adolescentes e suas famílias e serem por estes apropriados e vivenciados (Rizzini23, p. 49).

Somada às questões profissionais de saúde e educação, é condição sine qua non olhar a família. Esse grupo (primário) sofre mudanças e transformações continuadas e, não obstante, é o local no qual a criança está imersa, vive e desenvolve experiências e habilidades, somadas às da escola, que servirão de sustento em vários segmentos da vida. Portanto, olhar para os membros de cada família para que tenham atuação ativa e participativa em todo processo específico da criança oferece, de um lado, a informação e orientação nas inter-relações e afetos, e, por outro lado, o reconhecimento e fortalecimento de suas experiências e seus saberes acerca da criança e sua singularidade.

Há uma tendência das famílias em se posicionar de maneira subalterna, à espera de respostas prontas, de receitas a serem seguidas relacionadas às atitudes diante de suas crianças24. Entende-se que cabe aos profissionais da educação e da saúde motivar concepções e convicções mais críticas e menos centralizadas nas instituições, promovendo, juntamente aos membros do grupo familiar, competências, habilidades e resiliência diante dos processos de saúde-doença mental na infância.

O estigma presente nos tempos atuais ainda usa termos como doentes mentais, portadores de necessidades especiais, "criança com probleminha", síndromes, transtornos, etc. como rótulos inseparáveis à exclusão e à anormalidade, mesmo quando tais vozes advêm de grupos sociais variados e até com grau superior de escolaridade. Torna-se necessário, portanto, fomentar reflexões sobre a saúde mental na infância em variados contextos para diminuição de preconceitos existentes contra crianças-atores sociais, desde o contexto familiar aos espaços acadêmicos.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os problemas mentais na infância podem trazer algumas limitações no funcionamento mental e no desempenho de algumas atividades da criança. Ou seja, o funcionamento global é inferior à média, junto a limitações associadas em duas ou mais habilidades adaptativas como comunicação, cuidado pessoal e de relacionamento/habilidades sociais, etc.

Portanto, limitações podem provocar lentidão e atraso na aprendizagem, no desenvolvimento "socialmente" aceito e medido por conceitos e medidas padrões sem, necessariamente, retirar as habilidades e competências de cada criança dentro de seu contexto específico.

A criança portadora de algum problema mental, deficiência intelectual em sua comunicação e expressão, através do desenho, consegue criar e recriar formas de manifestar e comunicar seu mundo interno com o externo sem estar presa a normas, regras, obstáculos ou preocupações estéticas e sociais.

Apesar do avanço das tecnologias de informação e comunicação, os desenhos e as narrativas gráficas continuarão sendo uma importante ferramenta para a expressividade da criança, portanto, aprofundar estudos com essa população e buscar variáveis, como crianças que não se comunicam (espectro autista), crianças com movimentos comprometidos, torna-se louvável e pertinente.

Criar narrativas gráficas poetiza o dia a dia, ressignifica as atividades diárias, incorpora novos significados e sentidos para a vida.

 

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1. Graduado em Pedagogia, Especialização em Psicanálise e Psicopedagogia, Mestrado pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Doutorando em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP). Professor da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), Coordenador do Núcleo de Apoio Psicopedagógico/UEMG - Unidade Passos, Passos, MG, Brasil
2. Graduada em Enfermagem pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (EERP-USP), Mestrado em Enfermagem pela EERP-USP, Doutorado Sanduíche (PDSE - CAPES) na University of Victoria, BC, Canadá, Pós-Doutorado na University of Alberta, Edmonton, Canadá. Professora Associada da EERP-USP, Ribeirão Preto, SP, Brasil

 

Correspondência

Marcos Venicio Esper
Avenida Bandeirantes, 3900
Ribeirão Preto, SP, Brasil – CEP 14040-902
E-mail: marcos.esper@usp.br

Artigo recebido: 23/04/2019
Aceito: 26/09/2019

Conflito de interesses: Os autores declaram não haver.


Trabalho realizado na Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), Passos, MG, Brasil.