Artigo de Revisão - Ano 2019 - Volume 36 - Edição 110

A atuação do psicopedagogo em relação à inovação no ambiente escolar: Uma revisão sistemática integrativa

RESUMO

O presente estudo trata-se de uma revisão integrativa realizada com o objetivo de compreender sobre a atuação do psicopedagogo em relação à inovação no ambiente escolar, considerando as novas demandas, desafios e necessidades de transformações. A amostra inicial foi composta de 185 artigos; destes, 22 artigos foram selecionados para síntese e análise crítica a partir de critérios previamente definidos. Os resultados indicaram a necessidade do desenvolvimento de estudos que demonstrem a importância e diversidade de atuação do psicopedagogo para atender às novas demandas de inovação no contexto de aprendizagem escolar, contribuindo para o desenvolvimento do conhecimento científico da área, dos profissionais, e, principalmente, para o potencial de aprendizagem dos indivíduos.

Palavras-chave: Inovação. Psicopedagogia. Atuação. Aprendizagem.

ABSTRACT

The current study is an integrative review done with the goal of understanding what is psychopedagogy’s role to innovation in the school environment, taking into account the new demands, challenges and need for transformation facing schools. The initial sample was composed of 185 articles, 22 of which were selected for synthesis and critical analysis based upon previously defined criteria. The results indicated the need to develop studies that show the importance and diversity of the psychopedagogy’s actions to answer the new innovation demands in the school learning context, contributing to the development of scientific knowledge in the field, to the professionals and mainly to the individual’s learning potential.

Keywords: Innovation. Psychopedagogy. Professional Performance. Learning.


INTRODUÇÃO

A educação, em função de sua importância para a sociedade e para o indivíduo, no mundo todo, recebe atenção de diversas entidades, tais como, governos, ONGs e institutos de pesquisas, os quais, nos últimos anos, realizaram diversos retratos da educação1,2 demonstrando a necessidade de realizar mudanças que estão sendo mapeadas e disseminadas através de diversos diálogos sobre um novo ambiente de aprendizagem, um espaço que deverá atender às mudanças do século XXI e contemplar as mudanças que vêm ocorrendo relacionadas a novas tecnologias, currículos e, sobretudo, às novas competências a serem desenvolvidas nos alunos, com o propósito de desenvolver conhecimentos, habilidades, atitudes e valores para solucionar os atuais dilemas e os futuros desafios de um mundo cada dia mais complexo, instável e em constante transformação.

Nestes relatórios, educadores, economistas e psicólogos, entre outros profissionais, concordam que a aprendizagem e o desempenho dos alunos na escola e na vida não dependem apenas do que eles assimilam dos conteúdos definidos nos currículos escolares, mas principalmente do impacto de um conjunto de processos psicológicos que ocorrem com este aluno e do resultado da interação entre seus pares, os professores e a família, refletindo sua interdependência.

Estes processos interferem na formação de uma visão futura sobre como agir diante dos problemas e no constante aprender a aprender3, um conceito amplamente discutido, por meio de quatro pilares divulgados mundialmente há mais de 22 anos, e que ainda demonstram ser um desafio para os espaços escolares. Também nesse sentido foi aprovada a Base Nacional Comum Curricular4, que passou a orientar as 10 competências gerais que devem ser desenvolvidas de forma integrada aos componentes curriculares para a educação básica, disseminando a importância das habilidades e competências socioemocionais e determinando os direitos de aprendizagem dos alunos.

Por outro lado, frequentemente surgem novidades no contexto escolar, em sua maioria na área tecnológica5, tais como: robótica, realidade virtual, gamificação, cultura maker, torneios First Lego League, STEAM, programação, inteligência artificial, impressoras 3D, mobile learning, entre outros. Estas inovações refletem conceitos fundamentais da educação do século XXI, a qual está relacionada à necessidade do desenvolvimento de habilidades que permitam ao indivíduo lidar com a mudança, com a subjetividade, com a complexidade, com a convivência, a diversidade e, sobretudo, com a construção de um novo modelo mental direcionado à autonomia e ao protagonismo.

A Psicopedagogia, como área de conhecimento, surgiu da necessidade de atender e orientar crianças que apresentavam dificuldades ligadas à sua educação, mais especificamente à sua aprendizagem, devido a questões cognitivas ou relacionadas ao seu comportamento social. Embora o seu histórico contemple a atuação com distúrbios, dificuldades e transtornos de aprendizagem, o psicopedagogo atua em diversos contextos e populações, no segmento clínico ou institucional e, para além de identificar os obstáculos e promover a aprendizagem, este profissional visa o desenvolvimento das potencialidades do indivíduo, contribuindo com um novo olhar, através do diagnóstico e das intervenções psicopedagógicas.

Como indica Barbosa6, "para a psicopedagogia, a aprendizagem é concebida como um processo no qual o aprendiz possui uma participação intensa sobre seu próprio aprendizado, articulando cognição e afeto e garantindo que o conhecimento seja desejado e, por isso, aprendido." Para a autora, a intervenção garante que o aprendiz desenvolva-se para que a cada vez mais alcance níveis de maior complexidade.

Portanto, a partir do cenário apresentado, surgiu o interesse em compreender: Qual é a atuação do psicopedagogo em relação à inovação no ambiente escolar?

 

MÉTODO

Para responder à questão norteadora acima foi realizada uma revisão integrativa da literatura7, utilizando a recomendação PRISMA8. O levantamento dos artigos foi feito através de buscas em duas bases de dados: SCIELO, LILACS e na Revista Psicopedagogia da ABPp. A escolha pela revisão integrativa teve como objetivo principal consolidar e analisar o conhecimento científico produzido sobre a atuação do psicopedagogo e as novas demandas do contexto educacional. A realização dessa pesquisa passou pelas seguintes etapas:

1) Tema. Foi definida uma pergunta norteadora: Qual é a atuação do psicopedagogo em relação à inovação no ambiente escolar?

2) Definição de critérios. As palavras-chaves utilizadas na base de dados LILACS e SCIELO foram: a) psicopedagogia b) aprendizagem + inovação + escola. A primeira palavra-chave foi para identificar na literatura qual é o direcionamento na atuação do psicopedagogo, quais são as demandas e questões levantadas em relação a sua profissão, considerando a interdisciplinaridade e os limites de atuação. A segunda palavra-chave foi para identificar quais são as demandas para a inovação nos contextos de aprendizagem. Com o mesmo objetivo, foi realizada uma terceira busca na Revista Psicopedagogia: a) atuação e b) inovação.

Os critérios de inclusão definidos para a seleção dos artigos foram: a) artigos publicados na língua portuguesa, b) artigos publicados e indexados nos referidos bancos de dados, c) estudos que abordam o papel do psicopedagogo e sua formação; d) estudos que abordam a inovação em ambientes de aprendizagem. Foram incluídos dois artigos, de autoras com representatividade no contexto brasileiro, com o objetivo de elucidar a questão norteadora, os quais não apareceram nas buscas, mas que abordam de forma relevante o conteúdo ou fazem um contraponto. Devido ao número limitado de artigos que apareceram nas buscas iniciais e com o objetivo de analisar as diferenças ao longo dos anos, definiu-se por não realizar um limite para o ano de publicação, sendo apresentado o período compreendido entre 1992 e 2018.

Os critérios de exclusão foram: a) estudos estrangeiros, b) relatos sobre alunos com dificuldades e transtornos de aprendizagem, c) reflexões teóricas, relatos e revisões de literatura com foco distinto do tema e contexto delimitado, d) ambientes diferentes do contexto escolar, tais como: hospitais e ambientes diversos, e) formatos diversos (monografias, teses, vídeos, resenhas), f) formação docente, g) educação superior e andragogia, h) tecnologia, i) neurociência e neuropsicologia, j) artigos sobre clínica/avaliação, k) artigos duplicados.

3) Definição da amostra: Para responder à questão norteadora, foram realizadas as buscas nas bases eletrônicas de dados: 1) LILACS 2) SCIELO e na 3) Revista Psicopedagogia da ABPp, conforme os critérios de inclusão e exclusão previamente definidos, utilizando as palavras-chave por dois pareceristas. O total de artigos selecionados é apresentado na Figura 1.

 


Figura 1 - Fluxo da informação com as diferentes fases da revisão sistemática.

 

4) Seleção: A partir da leitura dos artigos selecionados na amostra inicial, foram aplicados os critérios de inclusão, exclusão, conforme os critérios previamente definidos, e identificados os artigos duplicados. Os artigos excluídos foram organizados em categorias para identificação e análise crítica.

5) Análise crítica e interpretação: Foi realizada a análise crítica dos artigos selecionados e os resultados foram interpretados destacando as diferenças e similaridades de perspectivas sobre a atuação do psicopedagogo e as demandas existentes para a inovação nos contextos de aprendizagem escolar.

6) Apresentação: A partir da síntese e interpretação dos resultados da análise crítica, foi identificada a conclusão à resposta para a pergunta norteadora e apresentadas as possíveis lacunas de conhecimento na seção Discussão.

 

RESULTADOS

A amostra inicial foi composta 185 artigos científicos publicados entre 1992 e 2018, sendo 98 artigos na LILACS, 29 artigos na SCIELO e 56 artigos na Revista Psicopedagogia da ABPp, conforme indicados pela Tabela 1.

 

 

Deste total, após a exclusão de 15 artigos duplicados e a aplicação dos critérios estabelecidos de inclusão e exclusão, foram utilizados 22 artigos, portanto, apenas um percentual de 15,6% dos artigos encontrados foi considerado para análise; este resultado demonstra a falta de discussão científica dos profissionais sobre o tema proposto. Foram excluídos da amostra inicial 141 artigos, sendo 24,11% dos artigos na categoria Dificuldades e Transtornos de Aprendizagem, indicando a relevância de atuação do psicopedagogo com foco nesta área. A Tabela 2 indica a distribuição das categorias dos artigos excluídos conforme os critérios de elegibilidade.

 

 

Foram incluídos dois artigos com o objetivo de elucidar a questão norteadora, devido à relevância do conteúdo, da representatividade das autoras e também para fazer um contraponto com a área da psicologia escolar, em função de diversos artigos apresentarem a discussão sobre os limites de atuação entre essas áreas. A amostra final constitui-se de 22 artigos selecionados, sendo que deste total apenas 5 são pesquisas empíricas, ou seja, 22,73% da amostra total, sendo a maioria relacionada a reflexões teóricas, fato que demonstra que os artigos em sua maioria não representam dados científicos significativos da população pesquisada para uma possível generalização da análise na área da Psicopedagogia no contexto escolar. A amostra final está representada nos Quadros 1 e 2.

 

 

 

 

DISCUSSÃO

Para responder à pergunta norteadora: Qual é a atuação do psicopedagogo em relação à inovação no ambiente escolar? Foi identificado, pela análise crítica e interpretação dos artigos selecionados para esse estudo, o seguinte panorama: Questões relacionadas à ênfase na discussão sobre questões regulamentares da atuação profissional, questões relacionadas a restrições e possibilidades de atuação no contexto escolar e sobre o desenvolvimento das habilidades para o século XXI, conforme detalhadas a seguir:

Ênfase na discussão sobre questões regulamentares da atuação profissional

A revisão integrativa da literatura indicou que desde 1992 a discussão em relação à atuação do psicopedagogo tem avançado com produção científica incipiente para a área, embora haja o reconhecimento de pelos psicopedagogos de importantes transformações ocorridas no contexto escolar. Inicialmente, Almeida9, em 1992, ao refletir sobre a interdisciplinaridade da Psicopedagogia, enfatizou que embora não fosse possível relacionar os modelos teóricos por ela apresentados como um corpo de conhecimento específico da Psicopedagogia, a área teria muito colaborado na superação da empiria dominante. A autora afirmou que a interdisciplinaridade seria o maior desafio da área, porém necessária para atingir seus objetivos, pois tratava-se de estar constituindo-se um novo saber científico. Seu artigo demonstrou que na época havia uma posição de ênfase na defesa da função, porém não foram apresentadas as novas possibilidades de atuação do profissional.

A discussão sobre os limites de atuação da Psicopedagogia, da Pedagogia e da Psicologia foram frequentes ao longo dos anos. Aproximadamente quase uma década depois, Jucá10, em 2000, abordou a relação entre a atuação do psicólogo e do psicopedagogo como um desafio advindo do aumento de problemáticas como o fracasso escolar que aumentavam e propiciavam o surgimento de algumas práticas e conhecimentos especializados, em função do interesse no mercado de trabalho. A autora descreve com imparcialidade as práticas de ambos os profissionais e conclui que o impasse principal se refere à construção de uma identidade de formação e atuação.

Também Sass11 apresentou sua posição para a "solução nova para velhos problemas", afirmando ser um equívoco a pretensão de regulamentar a Psicopedagogia como mais uma profissão da esfera educacional. Para este autor, os problemas psicopedagógicos referiam-se a diversos desafios de áreas já regulamentadas. Portella12, em 2005, reconstrói a caminhada da Psicopedagogia no Rio Grande do Sul, afirmando que foi originada pela demanda de crianças com necessidades educativas, marcando o início da trajetória da profissão e que sua evolução histórica se constituiu a partir dos movimentos aliados à reeducação.

No mesmo sentido, Masini13 afirmou que a identidade da Psicopedagogia não estaria bem delimitada, "permanecem discussões e embates com os próprios pares, em meio a mal-entendidos sobre fins, locais, modalidades e recursos de atuação". A autora apresentou o percurso histórico da Psicopedagogia, demonstrando que a área teria sofrido mudança que ultrapassa a dimensão estritamente individual para ampliar-se com dados do contexto social e concluiu persistirem questionamentos de outros profissionais sobre a especificidade do objeto de estudo, gerando a necessidade de aprofundamento de estudos, de pesquisas e de análise crítica, assim como a necessidade de encontrar diretrizes para lidar com problemas comuns no contexto escolar.

Em 2012, Santos et al.14 realizam um estudo comparativo sobre a formação em Psicopedagogia em três países: Argentina, Brasil e Espanha, concluindo que "mesmo havendo variação na ênfase das disciplinas que compõem a grade curricular, a formação oferecida é semelhante entre os países analisados". Os resultados também indicaram que apenas a regulamentação da profissão não seria suficiente para seu reconhecimento e valorização. Dois anos após, Noffs et al.15 também discutiram acerca das atribuições do psicopedagogo, considerando a história, os aspectos culturais e as necessidades específicas da área e apresentando a possibilidade de atuar na formação de docentes e principalmente na prevenção para juntos promoverem o desenvolvimento e a aprendizagem dos alunos, concluindo sobre "a importância de uma frequente reflexão em torno da própria prática".

Em 2016, Noffs16 retoma o tema e apresenta as concepções e desafios que norteavam a formação e a regulamentação da atividade em Psicopedagogia, defendendo a importância da qualidade nessa formação, destacando a sua importância como um processo contínuo, os quais "devem se integrar a processos de mudança, inovação e desenvolvimento curricular". A autora também relata que "caberá ao pesquisador assumir um papel construtor de conhecimento a partir da valorização do conhecimento já constituído, porém passível de atualizações ao seu tempo e espaço por meio da reflexão, da criticidade, contribuindo com a diversidade e divulgação desta área", enfatizando sobre a importância da atualização profissional.

A questão também é retomada por Rubinstein17, em 2017, defendendo tratar-se de outra área do conhecimento e afirmando que "a identidade do psicopedagogo é dinâmica no sentido de que ela se constrói a partir do conjunto de necessidades, crenças, teorias e práticas", portanto, a autora considera vital perguntar-se continuamente sobre "Quem somos", refletindo sobre a linguagem e a construção da identidade do profissional.

Em 2018, Castanho18 aborda sobre o tema da multidisciplinaridade, demonstrando que, ao longo de 26 anos, essa questão permaneceu como um frequente questionamento realizado ao profissional. Ela apresentou o assunto a partir da perspectiva da Teoria da Complexidade e discorreu sobre a fragmentação do conhecimento e da realidade complexa. Nesse sentido, apresentou o brincar como possibilidade de intervenção psicopedagógica que compreende as questões subjetivas relacionadas à aprendizagem, dando um passo significativo para demonstrar a aplicação prática da atuação psicopedagógica, considerando as mudanças que vêm ocorrendo e com o propósito de resgatar o sentido da aprendizagem para suas existências através da convivência.

Em comparação com outra área de atuação, a dos psicólogos, que atuam no contexto escolar, é possível identificar significativas diferenças sobre a visão de atuação profissional, como indicado no artigo incluído para comparação de Martinez19, a qual apresentou em 2009 sobre a visão profissional do psicólogo, indicando diversas possibilidades de atuação do profissional no contexto escolar e defendendo a importância de o profissional ser um agente de mudanças nos seus contextos de atuação, convidando-os a junto com outros profissionais tornarem-se sujeitos de uma ação científico-profissional transformadora, "o compromisso dos psicólogos com as mudanças que a educação brasileira demanda, como sendo seu compromisso essencial é sua participação consciente, ativa e compromissada na promoção e efetivação de transformações nos lugares onde exerce sua ação científico profissional no marco de abrangência desta". A autora demonstrou, para além de uma reflexão, um posicionamento claro sobre a atuação e atualização profissional em relação às demandas existentes, enquanto o psicopedagogo busca ao longo dos anos defender uma posição no mercado e a regulamentação profissional.

Restrições e possibilidades de atuação no contexto escolar

A revisão integrativa apresentou que o psicopedagogo, desde o início, teve sua atuação questionada pelos pedagogos e psicólogos, os quais acreditavam que estavam sendo invadidos em seu campo profissional, ocorrendo, portanto, muitos embates no contexto escolar. Dessa forma, esses profissionais passaram a se estabelecer predominantemente na atuação clínica10, realizando atendimento individual do aluno. No entanto, a Psicopedagogia atua muito além da identificação da visão profissional inicial relacionada às dificuldades ou transtornos de aprendizagem. Sua atuação permite que seja desenvolvida a visão de uma abordagem integral da educação, a qual contempla todas as dimensões do indivíduo para a realização de seu potencial, atendendo também as demandas institucionais relacionadas à aprendizagem.

Em 2002, Andrade20 apresentou que, ao longo dos anos, a escola ganhou uma importância crescente enquanto instituição formadora e abordou que ela não pode ser desligada dos seus limites externos, pois são esses limites que lhe oferecem um caráter institucional. Na visão do autor, a escola tem o poder de contribuir para o aprendizado das normas e valores sociais necessários à convivência e a solução pacífica de conflitos, assim como para o desenvolvimento moral das novas gerações, afirmando que a escola "seria uma instituição formadora da autonomia moral" e que a Psicopedagogia Institucional poderia contribuir para este desenvolvimento e para melhor convivência.

Nesse sentido, Pontes21, 8 anos depois, também abordou sobre a questão institucional, destacando a importância de o psicopedagogo conhecer a identidade da instituição para então realizar um trabalho de ação preventiva, promovendo diálogos e contribuindo para que as mudanças ocorram na comunidade escolar. O autor enfatizou a importância de o psicopedagogo ter o conhecimento de como o aluno constrói o seu saber e estar em busca de compreender as dimensões das relações com a escola, com os professores, com o conteúdo e destes com os aspectos afetivos e cognitivos.

Para ele, a Psicopedagogia poderia contribuir em relação à importância de compreender a cultura e valorizar a identidade do estudante, defendendo a necessidade de transformação e de repensar alguns paradigmas na escola:

"A escola deve ter: uma política de igualdade, que garanta oportunidades; ética da identidade, para afirmar-se na sua individualidade e saber respeitar a diversidade do outro; estética da sensibilidade, proporcionando o interagir. E é nesse contexto que entra o trabalho do psicopedagogo como articulador e promotor de ações que gerem mudanças, mesmo que de início sejam acanhadas, mas que, dentre outras, principalmente, minimizem os problemas relativos à aprendizagem".

Quatro anos depois, Noffs et al.15 apresentaram sua visão sobre as possibilidades do trabalho psicopedagógico de cunho preventivo no contexto escolar, destacando-se em variadas formas de prevenção, citando alguns exemplos que abrangem desde a releitura e reelaboração de programações curriculares, desenvolvimento de atividades que ampliem a forma de trabalhar alguns conceitos, na criação de materiais de orientação e palestras, orientação aos alunos e à família, entre outras atividades que se propõem a construir criativamente, integrando afeto e cognição no diálogo com as informações. Além de oferecer formação continuada aos educadores e atuando junto a profissionais de educação com o objetivo de oferecer uma aprendizagem mais significativa e integral.

O estudo de Araújo et al.22, em 2016, sobre o apego no ambiente escolar indicou a necessidade de desenvolver estratégias voltadas para a promoção de identidade com a escola, da percepção da escola como comunidade e das atitudes positivas frente à escola. Os autores pontuaram sobre os aspectos socioculturais e ambientais associados ao processo de aprendizagem através de uma perspectiva institucional. Essa perspectiva ofereceu uma visão de formação integral do indivíduo e indicou uma reflexão sobre a relação entre as novas necessidades do contexto escolar e o potencial do campo de atuação da Psicopedagogia de pensar novas estratégias para atender às demandas de aprendizagem.

Outro aspecto relevante demonstrado pela revisão integrativa foi que, embora os artigos selecionados apresentem a importância da atuação psicopedagógica no âmbito institucional, poucos foram os exemplos de práticas identificadas, em contraposição ao crescimento frequente das demandas e desafios que enfrentam a sociedade e a escola, muitos relacionados principalmente a dificuldades de convivência, diversidade, inclusão, fracasso e evasão escolar.

Desenvolvimento das Habilidades para o século XXI

É possível identificar nos artigos selecionados a partir de 2010 e principalmente após 2016 que se torna acentuada a preocupação sobre o desenvolvimento das habilidades para o século XXI: a promoção da criatividade, inovação e pensamento crítico passam a ser consideradas capacidades fundamentais para uma cultura que valoriza a autonomia, o protagonismo e a responsabilidade social, ou seja, condições essenciais para o desenvolvimento de um futuro sustentável

Isso é assinalado no artigo de 2010 de Eça23, o qual propõe o ensino da arte para transformar o currículo e recriar a escola por meio de projetos transdisciplinares, quebrando as barreiras entre áreas do saber e proporcionando espaços únicos de aprendizagem. A autora afirmou que esse sistema ainda está para ser construído na maior parte dos países e que, para implementá-lo, algumas mudanças precisam ser realizadas para que as escolas transmitam conhecimento, desenvolvam todas as inteligências e valorizem as capacidades que de fato são importantes para a vida.

"Necessitamos de um novo paradigma para a educação, de planos concertados entre lugares de aprendizagem, de novas formas de ensinar, aprender e avaliar que desenvolvam o pensamento crítico e independente, a imaginação, o sentido de risco, a curiosidade pelo conhecimento, a facilidade de comunicação em todas as áreas de expressão e conhecimento, tendo em conta as diversidades individuais e culturais."

Em 2010, Monteiro & Smole24 relataram a análise da implantação e implementação de um Programa de Inovação Educativa e as consequentes modificações ocorridas no ambiente escolar. As autoras enfatizaram a importância de tornar os sistemas educacionais mais eficientes e equitativos para o preparo de uma nova cidadania e também explicaram que os sistemas educacionais no mundo atual têm como meta principal contribuir para que os estudantes possam ser cidadãos ativos, solidários, críticos e democratas, propondo uma inovação no modelo de aprendizagem, centrado no aluno, com a utilização de estratégias diversificadas, embora reconheçam que esses modelos ainda enfrentam resistências estruturais e conjunturais. Para elas,

"a educação para a diversidade sugere reconhecer a heterogeneidade existente em cada turma, em todas as suas dimensões, como o ponto de partida para o planejamento e a organização do ensino e da aprendizagem, e atuar na criação de um ambiente que favoreça possibilidades de estudo e desenvolvimento pessoal e social aos estudantes, levando-se em consideração suas diferenças."

Nesse mesmo ano, Portella & Hickel25 apresentaram considerações sobre mudanças ocorridas no contexto escolar, escrevendo sobre a ampliação do Ensino Fundamental, o ensino de 9 anos. As autoras afirmaram sobre a importância de a escola manter a oportunidade de criação constante de um cotidiano articulado com seu tempo, sugerindo que o "o novo suscita um lugar novo e outra posição de ação" e defenderam o direito de aprender de acordo com a própria singularidade:

"a Psicopedagogia é um campo de conhecimento que se propõe a integrar conhecimentos e princípios de diferentes Ciências, com a meta de construir a melhor e mais aprimorada compreensão sobre as muitas variáveis implicadas no processo de aprendizagem."

Também em 2010, Demo26 defendeu a importância de rupturas na educação, da necessidade transformar o discurso em prática. Para o autor, a escola defende um discurso de transformação social, mas na prática nada transforma. A expectativa seria que os docentes fossem protagonistas e promovessem mudanças radicais, mantendo-se em desconstrução incessante, uma realidade distante da escola que mantém-se conservadora.

Após seis anos, Freitas27 retomou essa visão de proatividade frente às mudanças, propondo o pensar sobre a importância de um olhar sensível, que evite a reprodução de estereótipos e da falta de conexão com o saber, propondo a intervenção para desenvolver novas habilidades, em um momento histórico que oferece tanto multiplicidade de estímulos quanto velocidade de mudanças, exigindo, na visão da autora, rápida e contínua adaptação/desadaptação ou descarte. Ela utilizou a metáfora do ponto cego para pensar a aprendizagem sobretudo em uma dimensão mais subjetiva considerando o contraste entre o propagado apelo de atender às necessidades educacionais de todos e as concretas condições para tal. Concluiu propondo um olhar mais crítico e desafiando:

"Se ainda nos identificamos em ponto cego com relação a captar o que nos acontece, vale lembrar que o primeiro passo para o desvendamento é justamente essa identificação. Nesse constatar, questionamos a possibilidade de caminhos alternativos ao pretensamente único, interrogamos possibilidades, e isso já reflete lucidez, pensamento crítico e perspectivas de um novo aprender."

No ano seguinte, Veneu et al.28 descreveram o processo de desenvolvimento de uma intervenção com o objetivo de estimular o protagonismo dos estudantes ao desenvolver habilidades e valores como cooperação, interdependência positiva e responsabilidade. Para os autores, a importância de construir cidadania passa pelo desenvolvimento de algumas características tais como: interdependência positiva, interações face a face, habilidades colaborativas e processamento de grupo.

O aprendizado dessas habilidades colaborativas contribui decisivamente para formação de um cidadão crítico e atuante, demonstrando que é possível, a partir da escola, ter influência sobre o ambiente externo. Esse tema também é retomado em 2018 por Amorim et al.29, os quais afirmam sobre a importância de a área da psicopedagogia realizar estratégias de intervenção "para a promoção da aprendizagem e do desenvolvimento global do sujeito, valorizando fatores como a noção de (co) responsabilidade dos estudantes sobre a qualidade do seu ambiente de aprendizagem".

Em geral, os artigos selecionados para análise e síntese corroboram com o estudo realizado por Abed30 para a Unesco sobre a necessidade de incluir práticas pedagógicas voltadas ao desenvolvimento de habilidades socioemocionais como caminho para o sucesso escolar na educação básica. O levantamento das tendências atuais sobre o tema, no Brasil e no mundo, foi apresentado tomando-se como fio condutor o Fórum Internacional de Políticas Públicas, ocorrido em março de 2014. A autora afirmou que "as instituições de ensino, não estão acompanhando o ritmo frenético das transformações que vêm ocorrendo na sociedade". Ela afirma que se faz necessária uma revisão das práticas pedagógicas e defende a importância de "levar os profissionais a refletirem sobre os paradigmas que sustentam as suas práticas e instrumentalizá-los por meio de programas de formação consistentes, tanto do ponto de vista teórico como prático, para que eles possam de fato ser os agentes de mudança na educação". Em seu ponto de vista, é urgente e necessário que os paradigmas que sustentam a prática pedagógica se adequem ao novo estudante e à nova realidade em que vivemos.

 

CONCLUSÃO

Os artigos indicam que o psicopedagogo, seja pela dificuldade de atuação institucional no contexto escolar ou por outras questões as quais não foram possíveis identificar através da revisão integrativa da literatura existente, não desenvolveu um conhecimento científico relevante em relação à inovação no ambiente escolar, desconsiderando as novas demandas, as quais apresentam muitos desafios relacionados à aprendizagem e à promoção do potencial de aprendizagem do indivíduo.

Os artigos identificados sinalizam que este profissional ainda defende sua posição no contexto escolar e, embora existam algumas experiências relacionadas à atualização de intervenções no contexto escolar, estas situações são pontuais e estão mais relacionadas a um movimento externo de mudanças que empurram as atualizações das práticas profissionais. Nesse sentido, identifica-se a necessidade de desenvolvimento de estudos e artigos científicos na área de Psicopedagogia que abordem inovação, mudanças e transformações necessárias no contexto escolar para a promoção da aprendizagem e do potencial humano.

A revisão sobre a inovação no ambiente escolar demonstra que é preciso considerar que muitas das mudanças necessárias no contexto escolar envolvem não apenas a aquisição de novos equipamentos ou processos, mas principalmente uma mudança na forma de pensar, requerendo o desenvolvimento do pensamento crítico, do reaprender sobre conceitos e significados atribuídos, como apresentado na introdução. Existe uma demanda para a formação de professores, suporte à qualidade do clima escolar, atualização de práticas pedagógicas, realização de projetos especiais, aproximação com a comunidade, áreas que poderiam ser mais exploradas pelo psicopedagogo.

Essas ações pressupõem uma atuação sistêmica, para uma educação integral do indivíduo, a qual considere a complexidade das mudanças e transformações necessárias que as escolas passarão. Nesse sentido, os psicopedagogos podem, como especialistas em aprendizagem, contribuir na realização dessas ações, agindo de forma transdisciplinar, desde a prevenção, diagnóstico, planejamento até a intervenção.

Para que este novo cenário se realize, será necessário que se amplie no contexto escolar um novo olhar para o papel do psicopedagogo em relação a sua contribuição para a aprendizagem e que este profissional divulgue suas práticas para que sejam disseminadas, discutidas, ampliadas e fundamentadas como atividades de atuação do psicopedagogo.

Nesse sentido, é necessário que este profissional avance no exercício de sua profissão, inicialmente vencendo as barreiras que se apresentam no cenário exposto, evoluindo sua fala de um ato de defesa para um ato de promoção de suas estratégias, através de mais discussões científicas, para atender às novas demandas do processo de aprendizagem e para exercer sua função além do atendimento relacionado às dificuldades e transtornos de aprendizagem, como o fez inicialmente na história de sua atuação e, assim, realize seu papel em relação à prevenção e à promoção do potencial de aprendizagem do ser humano.

 

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1. Mestre em Educação pela UFPR. Especialista em Artes Visuais: Cultura e Criação (Senac/RJ). Graduada em Psicopedagogia pelo Centro Universitário FAE. Bolsista da CAPES. Administradora de Empresas, Curitiba, PR, Brasil
2. Graduada em Pedagogia pela PUC/PR, Especialista em Alfabetização e Letramento pela PUC/PR. Graduada em Psicopedagogia pelo Centro Universitário FAE, Curitiba, PR, Brasil
3. Graduada em Pedagogia pela PUC/PR, Pós-Graduada em Pedagogia Hospitalar na Faculdade Evangélica do PR, Curitiba, Paraná. Graduada em Psicopedagogia pelo Centro Universitário FAE, Curitiba, PR, Brasil
4. Especialista em Neuropsicologia (FMUSP). Graduação em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Professora de graduação e pós-graduação no Centro Universitário FAE, Curitiba, PR, Brasil

 

Correspondência

Ana Cristina Bittencourt
Centro Universitário FAE
Rua 24 de Maio, 135 – Centro – Curitiba, PR, Brasil – CEP 80230-080
E-mail: ac.bittencourt@yahoo.com

Artigo recebido: 10/01/2019
Aceito: 25/04/2019

Conflito de interesses: Os autores declaram não haver.


Trabalho realizado no Centro Universitário FAE, Curitiba, PR, Brasil.