Artigo Original - Ano 2019 - Volume 36 - Edição 109

Psicopedagogia: Um olhar para a maternagem no desenvolvimento da aprendizagem do sujeito

RESUMO

INTRODUÇÃO: A Psicopedagogia tem como objeto de estudo a aprendizagem. O seu olhar para o não aprender inicia na maternagem por meio de uma investigação minuciosa.
OBJETIVO: Sendo assim, o presente artigo tem por objetivo analisar sob um olhar psicopedagógico para a maternagem e o desenvolvimento da aprendizagem do sujeito. A fundamentação teórica da pesquisa foi baseada em autores que discutem sobre o tema nas áreas da Psicopedagogia, Psicologia e Psicanálise: Fernández (2001), Bossa (1994), Winnicott (2014), Paín (1985) e Piaget (1971).
MÉTODO: Para investigar sobre a “maternagem no desenvolvimento da aprendizagem do sujeito”, foi realizada uma pesquisa qualitativa em forma de entrevista. As entrevistas foram realizadas com dez mães, cinco mães cujos filhos apresentam um desenvolvimento normal na escola, e cinco mães cujos filhos apresentam algum tipo de dificuldade de aprendizagem na escola e procuraram atendimento Psicopedagógico no Centro de Especialização e Reabilitação – CER na Universidade do Extremo Sul Catarinense - UNESC, no município de Criciúma/SC. Também foi desenvolvido um levantamento bibliográfico referente à aprendizagem.
RESULTADOS: Diante deste levantamento e das análises das entrevistas, foi possível perceber que as mães que desenvolveram uma maternagem tranquila contribuíram para que os seus filhos tivessem um bom desempenho escolar. Já as mães que tiveram falhas na maternagem os filhos tiveram consequências na aprendizagem e buscaram atendimento psicopedagógico.
CONCLUSÃO: Constatou-se que a maternagem para a Psicopedagogia é uma das funções mais importantes que a mãe pode realizar na vida de um filho, pois ela vai ser a base para o desenvolvimento de suas aprendizagens.

Palavras-chave: Maternagem. Psicopedagogia. Desenvolvimento. Aprendizagem. Dificuldade de Aprendizagem.

ABSTRACT

INTRODUCTION: Psychopedagogy has the object of learning study. His look at non-learning begins in the mothering by means of a thorough investigation.
OBJECTIVE: Thus, the present article aims to analyze under a psychopedagogical perspective for the mothering and development of the subject’s learning. The theoretical basis of the research was based on authors who discuss the subject in the areas of Psychopedagogy, Psychology and Psychoanalysis: Fernández (2001), Bossa (1994), Winnicott (2014), Paín (1985) and Piaget (1971).
METHODS: To investigate “mothering in the development of subject learning”, a qualitative research was conducted in the form of an interview. The interviews were carried out with ten mothers, five mothers whose children had a normal development at school and five mothers whose children presented some type of learning difficulties at school and sought psychopedagogical assistance at the Specialization and Rehabilitation Center (CER) at the University of Extremadura, Southern Catarinense (UNESC), in the municipality of Criciúma / SC. A bibliographical survey on learning was also developed.
RESULTS: In the face of this survey and the analysis of the interviews, it was possible to notice that mothers who developed a quiet motherhood contributed to their children performing well in school. On the other hand, mothers who had failures in mothering had their learning consequences and sought psychopedagogical care.
CONCLUSION: It was found that mothering for Psychopedagogy is one of the most important functions that the mother can perform in the life of a child, since it will be the basis for the development of their learning.

Keywords: Maternity. Psychopedagogy. Development. Learning. Learning Difficulty.


INTRODUÇÃO

A Psicopedagogia como campo de atuação vem encantando por meio de sua área de atuação. A mesma surgiu para atender as fraturas do não aprender. Sendo assim, a Psicopedagogia tem como objeto de estudo as características da aprendizagem humana, ou seja, o estudo das formas de aprendizagem, como se aprende, como o sujeito entende a aprendizagem, como acontece a aprendizagem do sujeito, etc.

Face ao exposto, é preciso compreender também como aconteceu a maternagem, que é a base para todas as aprendizagens.

No bebê ao nascer, de acordo com Winnicott1, já existe nele uma pulsão para viver, uma organização em marcha, não dependendo de nós para crescer e desenvolver. No entanto, necessita de cuidados, ambientes apropriados, de alguém que observe o seu desenvolvimento, as suas necessidades e saiba como reagir nos momentos certos. Face ao exposto, é quando ocorre, então, a maternagem, que é entendida por Winnicott2 como a relação da mãe com o bebê, mais precisamente como a função da mãe ou de uma outra pessoa que substitua a mãe.

Do contrário, se a maternagem não for bem realizada, a criança poderá ter consequências em seu desenvolvimento, implicando, na maioria das vezes, em idade escolar, aparecer uma dificuldade de aprendizagem. Esta mesma pode ser solucionada por meio de um trabalho psicopedagógico.

Neste sentido, o presente artigo pretende olhar sob a ótica da Psicopedagogia para a maternagem considerando sua importância no desenvolvimento da criança com a seguinte problemática de investigação: investigar as contribuições e consequências sob um olhar psicopedagógico para maternagem no desenvolvimento da aprendizagem do sujeito. Portanto, optou-se por uma pesquisa qualitativa com as mães, a fim de compreender as questões relacionadas à maternagem que interferem no processo de desenvolvimento da aprendizagem das crianças.

A Psicopedagogia considera a maternagem e sua complexidade de suma importância para o desenvolvimento do sujeito e sua aprendizagem.

Para alcançar o objetivo deste trabalho, definiram-se os seguintes objetivos específicos: Identificar a constituição da maternagem para a Psicopedagogia; Reconhecer a importância da maternagem para Psicopedagogia; Relacionar as contribuições e consequências da maternagem no desenvolvimento dos sujeitos.

Para dar conta do estudo, foi realizada uma pesquisa de abordagem qualitativa, de fontes orais e bibliográficas. Foram realizadas entrevistas com dois grupos de mães, um grupo de cinco mães cujos filhos apresentam bom desempenho na escola e outro grupo de cinco mães cujos filhos apresentam dificuldade de aprendizagem na escola no município de Criciúma/SC.

Todas essas informações foram cruzadas com os conceitos de Psicopedagogia, Maternagem, Psicanálise, Estruturas Cognitivas baseado nos principais autores: Bossa, Spitz, Winnicott, Fernández, Paín e Piaget.

O artigo foi organizado com os seguintes títulos: A Constituição e o Desenvolvimento da Maternagem na Psicopedagogia; A Maternagem como Campo de Atuação da Psicopedagogia; O Desvendar da Maternagem nas Dificuldades de Aprendizagem; Método, Resultados, Discussão, Conclusão e Referências.

 

A CONSTITUIÇÃO E O DESENVOLVIMENTO DA MATERNAGEM NA PSICOPEDAGOGIA

O bebê, quando nasce, necessita de alguém que zele por ele, que atenda às suas necessidades e proporcione boas experiências. Neste momento ocorre a maternagem, ou seja, é o momento que a mãe vai desempenhar o seu papel mais importante na vida do filho.

A mãe, por meio do seu afeto desde o momento em que planeja/deseja a gravidez, desempenha um papel de fundamental importância para o desenvolvimento e aprendizagem do bebê, pois, de acordo com Spitz3, é por meio dela que o bebê vai dando significado ao mundo e vai aprendendo. Suas significações são resultado de uma maternagem tranquila na qual a mãe apresenta o mundo em pequenas doses, por meio do mamar, das conversas que estabelece com seu bebê. Qualquer estresse vivido pela mãe pode atrapalhar a maternagem.

Ainda de acordo com Winnicott1, no período da maternagem é constituído o self na vida da criança. Self é a experiência de si, ao longo do tempo, é a possibilidade de se perceber nos primórdios da existência. É por meio do cuidado da mãe para com o filho que será constituído o self no mesmo, ou seja, que serão possibilitadas experiências para que o bebe perceba a sua existência no mundo, aprendendo a ser e a relacionar-se. Inicialmente, a mãe faz tudo pelo bebê e aos poucos vai lhe ensinando a viver e é nesta relação que o bebê vai se constituindo como pessoa. Daí, a importância de a mãe ter um estado bom de saúde, ser equilibrada, pois o rosto da mãe é o espelho para o bebê (Winnicott, 1999, apud Monteiro4).

Do contrário, pode ocorrer o falso self, que é quando a mãe fica distante da criança e não lhe atende as suas necessidades. Dessa forma, o bebê se acomoda a essa falta da mãe, criando um falso self para se proteger desta falha. Um falso relacionamento, uma falsa visão de si mesma, um falso existir.

A mãe suficientemente boa tem três funções nos primeiros meses de vida do bebê de acordo com Winnicott (1975) apud Monteiro4: holding (sustentação), handling (manejo), e a apresentação dos objetos. O holding é como o bebê é segurado no colo por sua mãe, que significa a firmeza com que é amado e desejado como filho, acelerando o processo de maturação e fundamentando ao bebê a capacidade de sentir-se real, é fornecer o ego antes de o bebê tê-lo, ou seja, é a constituição do self. Já o handling, é a experiência de entrar em contato com o corpo através da mão e dos cuidados da mãe, é a maneira como o bebê é tratado, manipulado, cuidado. E na apresentação dos objetos inicia a introdução do mundo da realidade compartilhada, o bebê aprende a compartilhar a mãe, encontrando-se com novos objetos.

O primeiro alvo das fantasias da criança é o corpo da mãe, já que ela é o principal objeto com o qual a criança se relaciona em seus primeiros dias de vida. Esse objeto que Spitz3 chama de objeto libidinal é um objeto de instinto capaz de alcançar um objetivo. O objeto vai modificando ao longo do tempo, o primeiro objeto libidinal é o corpo da mãe, com o tempo ele passa a ser a própria mãe, até o bebê diferenciar o corpo e o objeto. As fantasias acerca da exploração do corpo materno são de extrema importância para a descoberta do mundo externo pela criança5.

Spitz3 confirma que há três estágios no desenvolvimento, aos quais o bebê estabelece as relações objetais: Estágio pré-objetal ou sem objeto, Estágio do precursor do objeto e Estágio do próprio objeto libidinal. No estágio pré-objetal o recém-nascido não distingue uma coisa da outra; é por isso que ele considera o seio da mãe como parte dele. Durante os primeiros dias e aproximadamente um mês, o mundo exterior inexiste para o recém-nascido por conta de que há uma barreira do estímulo extremamente alta que protege o aparelho perceptivo do recém-nascido do mundo exterior.

Dentro do estágio precursor do objeto, Klein apud Oliveira5 diz que “A vida fantasmática auxilia o sujeito na formação da impressão de seu mundo externo e interno, através dos processos de introjeção e projeção.” Ou seja, no processo de introjeção, que é quando o bebê põe os objetos na boca, ele experimenta sensações de gratificações e frustrações, sentimentos bons e ruins. Já na projeção, a criança projeta-se no outro. Dessa forma, a criança constrói seu mundo interno, sua personalidade, por meio da elaboração destas fantasias.

Todo estímulo deverá primeiro ser transformado em uma experiência significativa para que depois se torne um sinal, à qual outros sinais serão acrescentados aos poucos para construir a imagem de mundo para a criança. O fator mais importante para tornar a criança capaz de construir aos poucos uma imagem de mundo é a reciprocidade entre mãe e filho. É esta a parte das relações objetais denominada diálogo. O ciclo ação-reação-ação torna o bebe capaz de transformar gradualmente os estímulos sem significado em signos significativos3.

O bebê inicia a sua maturidade desde o seu nascimento, de acordo com as suas experiências. No início não possui consciência e noção de tempo e espaço. É a partir dos primeiros cuidados com o bebê que ele começa a diferenciar o que é ele mesmo e o que existe fora dele.

Winnicott1 diz que o conhecimento da mãe do que é real ou não contribui muito para que o filho gradativamente vá compreendendo que o mundo não é como se imagina e que a imaginação não é como o mundo. O mundo da imaginação começa lá na amamentação, na forma com que a mãe apresenta o seio, e vai enriquecendo a vida íntima do bebê com o que é percebido no mundo externo. Muitas coisas dependem da maneira como o mundo é apresentado ao bebê, a uma criança em desenvolvimento, e é a mãe que dá início a essa tarefa de apresentar o mundo em pequenas doses. A pessoa que consegue diferenciar o mundo real do imaginário é porque teve uma mãe que o apresentou em pequenas doses.

Na Psicopedagogia, a maternagem é considerada de fundamental importância para o desvendar das dificuldades de aprendizagem do sujeito. No diagnóstico clínico psicopedagógico ou algumas vezes durante o tratamento é possível identificar como ocorreu a maternagem e se a mesma foi a causa da dificuldade de aprendizagem no sujeito. As Dificuldades de Aprendizagem são o foco da Psicopedagogia que, segundo Scoz apud Bossa6, estuda o processo de aprendizagem e suas dificuldades, englobando vários campos de conhecimento.

 

A MATERNAGEM COMO CAMPO DE ATUAÇÃO DA PSICOPEDAGOGIA

O termo Psicopedagogia no princípio correspondia numa relação da Psicologia e da Pedagogia e “nasceu da necessidade de uma melhor compreensão do processo de aprendizagem”6. Buscando conhecimentos em diferentes campos de estudo, a Psicopedagogia criou com a contribuição de alguns profissionais o seu próprio corpo teórico e o seu próprio campo de estudo.

Diante do exposto, Kiguel apud Bossa6 relata que “historicamente a Psicopedagogia surgiu na fronteira entre a Pedagogia e a Psicologia, a partir das necessidades de atendimento de crianças com ‘distúrbios de aprendizagem’, consideradas inaptas dentro do sistema educacional”, ou seja, a Psicopedagogia surgiu para atender as crianças que apresentavam dificuldades de aprendizagem na escola, para trabalhar com a hipótese do não aprender. Com o passar do tempo, os profissionais definiram como objeto de estudo da Psicopedagogia, de acordo com Bossa6, as características da aprendizagem humana, ou seja, como se aprende, como essa aprendizagem varia evolutivamente e está condicionada por vários fatores, como se produzem as alterações na aprendizagem, como reconhecê-las, tratá-las e preveni-las. E passou a não mais tratar apenas os sujeitos com distúrbios de aprendizagem e sim a prevenir esses distúrbios.

No trabalho preventivo psicopedagógico a instituição é o objeto de estudo, os seus processos didáticos-metodológicos e a dinâmica institucional que interferem no processo de aprendizagem são avaliados. Há diferentes níveis de prevenção, no primeiro o psicopedagogo atua nos processos educativos com o objetivo de diminuir a frequência dos problemas de aprendizagem. No segundo nível, o objetivo é diminuir e tratar dos problemas de aprendizagem já instalados, para que não se repitam esses transtornos. No terceiro nível, o objetivo é eliminar os transtornos já instalados, num procedimento clínico com todas as suas implicações para prevenir o aparecimento de outros transtornos6.

Já o trabalho clínico psicopedagógico é composto por diferentes momentos, dentre eles estão o Diagnóstico e o Tratamento. O Diagnóstico, de acordo com Sara Pain7, é composto pelo Motivo da Consulta, História Vital, Hora do Jogo, Provas Psicométricas, Provas Projetivas e Provas Específicas. Após fazer todas essas etapas diagnósticas, e muitas vezes nas duas primeiras, é possível verificar a forma com que foi realizada a maternagem no sujeito e se a causa da dificuldade de aprendizagem originou-se pela falta dela ou não.

A etapa diagnóstica chamada História Vital é o auge da maternagem, é nesta etapa que será observada como aconteceu a relação mãe e bebê. Inicia-se a consulta com os pais do sujeito, em especial com a mãe e o psicopedagogo, na qual ambos irão realizar um diálogo recheado de questionamentos objetivos a serem realizados pelo profissional, a fim de reconstruir toda a história do sujeito, desde os antecedentes natais, do nascimento, dos primeiros dias de vida até os dias atuais.

Ao concluir esta etapa, se a mãe não soube responder muitas perguntas sobre o filho por não se recordar, ou se não teve uma boa relação com o seu bebê, não realizou essa função com prazer, antes de finalizar o diagnóstico, fica evidente que a dificuldade de aprendizagem do sujeito originou-se por conta da falta de maternagem ou de uma maternagem mal feita.

O psicopedagogo serve como ponte entre o aprender e, para isso, necessita aprender o aprender para poder ressignificar a aprendizagem de seu aluno ou paciente. Neste trabalho de ensinar a aprender, o psicopedagogo recorre a critérios diagnósticos no sentido de compreender a falha na aprendizagem. Esse diagnóstico consiste na busca de um saber para saber-fazer, é por meio das informações obtidas nesse diagnóstico que o psicopedagogo inicia o seu plano de trabalho6.

A Psicopedagogia historicamente nasceu para atender as dificuldades, ou anormalidades da aprendizagem, mas atualmente tem se voltado não somente para atender as dificuldades, mas também para preveni-las.

Ao chegar na escola, o sujeito muitas vezes já vem apresentando dificuldade em aprender, ou algumas vezes essa dificuldade vai aparecer ao longo do seu desenvolvimento. Sendo assim, a Psicopedagogia busca saber as causas dessa fratura na aprendizagem, chegando à conclusão que a mesma pode ter início já nos primeiros meses de vida do sujeito, ou seja, no processo de maternagem.

O problema de aprendizagem que constitui um ‘sintoma’ ou uma ‘inibição’ toma forma em um indivíduo, afetando a dinâmica de articulação entre os níveis de inteligência, o desejo, o organismo e o corpo, redundando em um aprisionamento da inteligência e da corporeidade por parte da estrutura simbólica inconsciente (Fernández, p. 82)8.

Para buscar a origem da causa desse problema na aprendizagem, é preciso conhecer o sujeito, sua história e sua relação familiar.

 

O DESVENDAR DA MATERNAGEM NAS DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM

A aprendizagem não tem uma estrutura pronta, formada, para acontecer, ela acontece na interação com o outro. Fernández (p. 48)8 diz que “O aprender transcorre no seio de um vínculo humano cuja matriz toma forma nos primeiros vínculos mãe-pai-filho-irmão [...]”.

Cada um de nós temos uma maneira diferente de aprender, que vem sendo construída desde o nosso nascimento. Fernández (p. 107)8 intitula de Modalidade de Aprendizagem, esta “é como uma matriz, um molde, um esquema de operar que vamos utilizando nas diferentes situações de aprendizagem.” É durante o diagnóstico psicopedagógico que conseguimos identificar a Modalidade de Aprendizagem, e também é observado como o sujeito lida com a aprendizagem, os vínculos que ele tem com quem ensina, inclusive até é possível perceber a modalidade de aprendizagem da família.

Para diagnosticar a Modalidade de Aprendizagem do sujeito, Piaget definiu as invariantes assimilação e acomodação. Na modalidade de aprendizagem hipoassimilação há um déficit lúdico e criativo, os objetos são empobrecidos. Na hiperacomodação há muita imitação e pouca iniciativa. Na hipoacomodação há uma pobreza de contato com o objeto por conta da falta de estimulação ou abandono. Na hiperassimilação há o predomínio do lúdico e a internalização prematura dos esquemas, desrealizando o pensamento da criança7.

Descreveremos, a seguir, como acontece o desenvolvimento mental da criança, o nascimento da inteligência e a importância da equilibração entre a acomodação e a assimilação.

Para que ocorra a construção da vida mental do sujeito, faz-se necessário pensar em alguns aspectos que as compõem: Maturação, Experiência Física e Lógico Matemática, Experiência Social, Equilibração e Motivação.

Piaget acredita que a maturação está presente em todas as transformações ocorridas durante o desenvolvimento, é o fator que se refere ao crescimento fisiológico e ao desenvolvimento do sistema nervoso e é mais utilizada nos primeiros anos de vida. A Experiência Física e a Lógico Matemática são as ações do sujeito sobre o objeto e a coordenação dessas ações, levando a aquisição de algumas estruturas. A Experiência Social são as trocas ou cooperações entre as pessoas. A Equilibração é o equilíbrio entre a assimilação e a acomodação, o qual deve ser alcançado pelo sujeito. E a Motivação é o ponto de partida do processo construtivo da vida mental9.

Tendo como base esses aspectos, faz-se necessário compreender como ocorre então o desenvolvimento mental da criança. O mesmo ocorre por meio de estruturas que são formas de organização distintas por Piaget10 em quatro períodos do desenvolvimento.

O primeiro período do desenvolvimento é intitulado Sensório-Motor e vai desde o nascimento até os dois anos de idade e é composto por seis fases. Essas fases passam pelos reflexos do meio externo, pela tentativa de imitação ampliando as reações, pelas tentativas de sons e de fazer movimentos feitos pelos adultos; em uma das fases, a criança já realiza gestos sem vê-los, sem precisar imitar uma outra pessoa, começa a perceber o seu próprio corpo e a partir de então começa a coordenar os esquemas fazendo novas descobertas por meio da exploração dos objetos e, por fim, ocorre então a constituição da inteligência sensório-motora, as experiências que o indivíduo teve até o momento de coordenação dos esquemas dão lugar agora a combinações mentais.

O segundo período vai dos dois aos sete anos, e intitula-se pré-operacional. Neste, o jogo e o símbolo são de suma importância para o desenvolvimento mental, pois neste estágio ocorre o desenvolvimento da linguagem, imaginação, fantasia, faz de conta e a criança quer saber as explicações de tudo, a famosa “fase dos porquês”.

A criança precisa construir imagens e ajustá-las para si formando classes, séries etc. A criança vai interiorizando os objetos na forma de imagem, mas a princípio relaciona somente com aquele objeto visto e não com outros objetos iguais aquele. Nesta fase acontece muito forte o egocentrismo, em que tudo deve estar centrado no eu.

O terceiro período intitula-se Operacional Concreto e vai dos sete aos 12 anos. Neste, a inteligência é concreta e o foco é dominar as operações. Aqui, a criança já relaciona mentalmente o objeto com vários outros iguais a ele e não somente com aquele que ele mentalizou, pois ele já consegue diferenciar as características, daí a importância do jogo e da formação do símbolo. O pensamento começa a socializar-se com o do outro e a sua visão de mundo começa a ser confrontada com a de outras pessoas. O indivíduo coordena suas ações interiorizadas para construir as estruturas ou sistemas operatórios. E também coordena com os de outra pessoa. Acaba então o período egocêntrico, pois cria o seu próprio ponto de vista. Neste período a estrutura afetiva tem grande relevância, pois até os 12 anos os afetos estão ligados a pessoas de convivência. É neste período também que a criança consegue atingir de fato o equilíbrio entre a assimilação e a acomodação.

E por fim o último período, intitulado Operacional Formal, que vai dos 12 aos 16 anos, que é a adolescência, o pensamento começa a manipular as ideias por intermédio de várias formas de linguagem. Acontece também a formação da razão, das estruturas de pensamento e paralelamente a formação da personalidade e conquista da participação na vida adulta.

Diante do exposto, vale ressaltar a importância de uma boa maternagem para o desenvolvimento futuro que foi citado acima. A maternagem, como já dito, tem forte influência para o desenvolvimento afetivo, cognitivo e social do sujeito, pois é a mãe que vai dar suporte para o mesmo conhecer o mundo.

O sujeito que chega no consultório psicopedagógico com uma queixa de problema de aprendizagem em sua maioria pode ser por conta de uma maternagem não feita, ou malfeita. Ou seja, uma criança que, no momento diagnóstico da prova hora do jogo, não consegue criar um objeto com os materiais disponibilizados, mexe muito na caixa, tenta construir algumas coisas, mas não consegue finalizar é uma criança que a sua modalidade de aprendizagem é hiperassimilação x hipoacomodação, ou seja, na maternagem o ritmo da criança não foi respeitado, a criança não conseguiu repetir várias vezes a mesma experiência, não passou pela fase da imitação e as consequências foram aparecer só na escola ao executar as operações lógicas.

Ao realizar um diagnóstico do problema de aprendizagem, é necessário levar em consideração alguns fatores, que Paín7 nomeia de: Fatores Orgânicos, Específicos, Psicógenos e Ambientais, que estão interligados com as dimensões biológica, cognitiva, social e função do eu e com as condições da aprendizagem internas e externas. Ou seja, ao realizar um diagnóstico, é preciso levar em conta a saúde do sujeito, como ele memoriza o conhecimento, como ele consegue processar e organizar o conhecimento, como ele consegue socializar essa aprendizagem, como ele está estruturado cognitivamente. É importante ressaltar também em como ele recebe os estímulos do meio para o levarem à aprendizagem, etc.

Sendo assim, caso o paciente esteja sofrendo com déficit de alguns desses fatores, não significa que ele esteja com um problema de aprendizagem, ele pode não ter sido estimulado em uma determinada aprendizagem, ou não ter sido compreendida a sua forma de aprender. Cada problema de aprendizagem tem um significado e um diagnóstico diferente, pois, além de analisar o grau da dificuldade do paciente, é necessário observar qual o fator que está determinando essa dificuldade e qual a “[...] relação particular do sujeito com o conhecimento e o significado do aprender” (Fernández, p. 39)8.

Existem dois tipos de Fracasso na Aprendizagem, de acordo com Fernández8, o Fracasso do que aprende e o Fracasso do que ensina, sendo esses muito importante de se identificar ao fazer um diagnóstico.

Muitas vezes, o fracasso na aprendizagem está ligado ao fracasso escolar, ao fracasso de quem ensina, um ensinamento rígido, forçado e não um ensinamento com prazer. Diante disso, há duas formas diferentes a serem trabalhadas. Quando é diagnosticado o fracasso do que aprende, é necessário fazer um tratamento psicopedagógico clínico para buscar saber a origem do problema. Já se o fracasso for do que ensina, o tratamento psicopedagógico deve acontecer na instituição escolar de forma a rever os ensinamentos dos ensinantes.

 

MÉTODO

Para analisar as contribuições e consequências da maternagem no desenvolvimento dos sujeitos, foi realizada uma pesquisa de abordagem qualitativa em forma de entrevista com dois grupos de mães a fim de observar de que forma aconteceu a maternagem, bem como as contribuições e consequências da mesma para o desenvolvimento das aprendizagens dos sujeitos. O primeiro grupo de mães foi solicitado pessoalmente pela autora à direção de uma Escola Pública Municipal da cidade de Criciúma, SC, o contato de mães cujos filhos estudam na mesma no Ensino Fundamental de primeiro ao quinto ano e apresentam um bom desenvolvimento escolar; desta forma, as entrevistas foram entregues e respondidas individualmente pelas mães.

O outro grupo é de mães cujos filhos apresentam dificuldades na escola e procuraram atendimento Psicopedagógico no Centro de Especialização e Reabilitação – CER – na Universidade do Extremo Sul Catarinense - UNESC, no município de Criciúma, SC. O primeiro grupo de mães será apresentado como mães M1, M2, M3, M4 e M5 e o segundo grupo de mães será apresentado como D1, D2, D3, D4 e D5.

Conforme Oliveira (p. 117)11:

As pesquisas que se utilizam de abordagem qualitativa possuem a facilidade de poder descrever a complexidade de uma determinada hipótese ou problema, analisar a interação de certas variáveis, compreender e analisar processos dinâmicos experimentados por grupos sociais, apresentar contribuições no processo de mudança, criação ou formação de opiniões de determinado grupo[...].

Para proporcionar respostas à problemática, esta pesquisa é bibliográfica, pois foi realizada uma fundamentação teórica baseada em autores que discutem sobre o tema nas áreas da Psicopedagogia, Psicologia e Psicanálise: Fernández8, Bossa6, Winnicott1, Paín7 e Piaget10. É também de campo, pois foram realizadas entrevistas a fim de observar como foi realizada a maternagem e de que forma ela contribuiu ou não para o desenvolvimento e a aprendizagem dos sujeitos pesquisados.

A pesquisa também é explicativa, pois visa explicar as questões relacionadas à maternagem que interferem no processo de desenvolvimento da aprendizagem das crianças. Para Gil (p. 42)12:

Essas pesquisas têm como preocupação central identificar os fatores que determinam ou que contribuem para a ocorrência dos fenômenos. Esse é o tipo de pesquisa que mais aprofunda o conhecimento da realidade, porque explica a razão, o porquê das coisas.

 

RESULTADOS

As cinco mães que conseguiram desenvolver uma maternagem tranquila, saudável, fizeram todo acompanhamento médico correto, os seus filhos desenvolveram-se normalmente e apresentam um bom desempenho escolar, não tendo problemas de aprendizagem. Já as outras cinco mães, que tiveram uma maternagem conturbada por conta do estilo de vida, de carência estrutural, de falta de instrução ou até mesmo por conta de enfermidades, os seus filhos apresentaram retardo no desenvolvimento e, consequentemente, dificuldade de aprendizagem no período escolar e procuraram atendimento psicopedagógico.

 

DISCUSSÃO

A criança, desde a concepção no ventre da mãe até o momento do nascimento e dos seus primeiros meses de vida, passa por várias experiências muito ricas e de fundamental importância para o seu desenvolvimento. É preciso que estas experiências sejam proporcionadas da melhor forma possível. A pessoa a proporcionar essas experiências a criança é a mãe, exercendo a maternagem.

A maneira como a criança é planejada, a forma de tratamento com a mesma desde o ventre da mãe, os sentimentos e as emoções vivenciadas pela mãe e pessoas próximas da mesma são requisitos fundamentais para desenvolver uma maternagem tranquila e propiciar um bom desenvolvimento a criança.

As mães M1, M2, M3, M4, M5 conseguiram desenvolver uma maternagem tranquila. M1 relata “Meu filho foi planejado com muito carinho amor e paixão. Quando descobri que estava grávida, foi uma alegria contagiante, ali começou mais uma etapa em minha vida. Fiz o pré-natal do bebê, mês a mês tive o acompanhamento com meu obstetra.”

Já as mães M2, M3, M4 e M5 relataram que seus filhos não foram planejados, no entanto, depois do susto, ficaram muito felizes e fizeram os acompanhamentos médicos necessários.

O bebê precisa ser conhecido como pessoa o mais cedo possível, pois desde o ventre ele já é um ser humano e quando nasce já teve uma grande soma de experiências boas e ruins. Mães que tiveram uma gestação turbulenta, ou que passaram por problemas de saúde, desde o ventre a criança já está passando por esse tipo de experiência. D1 relata que “minha gestação foi turbulenta, estava casada há cinco anos, estava passando por um momento bem difícil por problemas de saúde e estava fazendo quimioterapia e fiquei grávida. Durante a gestação, tive eclampsia, passei bem mal e estava morando em Curitiba só eu e o meu marido, tendo que lidar com situações que nunca tínhamos vivido. Foi uma gestação bem difícil, quando ganhei ele, entrei em coma por dois dias, mas ele nasceu saudável. Já D2 diz que “nenhum dos nove foram planejados e nunca tiveram expectativas”.

Winnicott1 diz que a mãe precisa aprender a ser mãe praticando. O pai ajuda nas preocupações exteriores. É preciso divertir-se e desfrutar de tudo para o seu prazer, que será fundamental para o bebê. Se a mãe faz com prazer, transmite coisas boas ao bebê. M2 diz que “Quando nasceu, o meu marido e a minha filha cuidaram comigo do nosso bebê, a recuperação foi ótima. Sempre conversávamos muito com o bebê.”

Já M1 diz que “Quando pensei em ter meu filho, planejei ficar em casa cuidando dele até o primeiro aninho dele, e assim o fiz, fiquei em casa até ele completar um ano e seis meses, depois coloquei na creche e voltei a trabalhar.”

A preocupação materna inicial faz com que a mãe e o bebê tenham uma mistura de emoções, no entanto, é um período necessário para a mãe se adaptar às necessidades do bebê, colocar-se no lugar dele e entender o que ele sente1.

As mães M1 e M4 relatam com riquezas de detalhes o desenvolvimento inicial dos seus filhos e juntamente com as mães M2, M3 e M5 relatam que seus filhos tiveram um bom desenvolvimento.

Já as mães D1, D2, D3, D4 e D5 também descreveram com riquezas de detalhes, no entanto, tiveram marcas no desenvolvimento dos filhos.

D1 relata que o seu filho ficou em coma por dois dias e ela teve ruptura no peito, ficou 11 dias no hospital e ele se alimentou com leite no copo, mas não era leite do peito, depois mamou normal até 1 ano e 6 meses. Com um ano, pegou rotavírus (bactéria no intestino e no estômago) e ficou internado em três hospitais para poder se curar. Passou pela situação negativa de morte, a mãe sofreu bastante e chegou a entrar em depressão com a perda do tio-avô e ele sofreu junto com ela.

D3 relata que ao nascer ficou sete dias na incubadora, precisou tomar banho de luz, com dois meses teve pneumonia. Ela toma ritalina de manhã e à tarde e melhorou nas tarefas. Até o ano anterior, o pai era usuário de drogas e por isso a menina tem ainda um certo medo, receio do pai. Passou por separação dos pais.

D4 já diz que “minha filha tem dificuldades para dormir, quando ela era mais novinha dava muricalm, passiflora, remédios naturais, chazinhos, etc. E até hoje ela tem dificuldades para dormir. Quando ela vai dormir, ela apaga do nada.”

D5 diz que o seu filho foi adotado com 8 meses. Sua alimentação era mamadeira, frutas e papinhas, não pegava nada que fosse úmido (alimento). Seu sono era turbulento e tinha crises de choro. Foi cuidado pelos pais e recebeu ajuda das tias. Teve atraso em algumas fases do desenvolvimento como firmar a cabeça com um ano, sentar sem escoro com um ano e um mês. No entanto, trocava sempre a fralda, colocava perfume, dava bastante banho, colocava bastante creme, anda sempre de roupa limpa. Pegou licença-maternidade e tirou a saída para ficar com ele, ficou até um ano e seis meses.

Relata também que a felicidade era tanta que não queria deixar ninguém olhar com medo de roubarem, precisou ir para a psicóloga para poder desagarrar um do outro. Nos primeiros meses tinha medo de perder e não gostava nem de abrir a casa com medo de roubarem, tinha medo de o juiz retirar a criança, pois não tinha saído a certidão com o nome dos pais adotivos. Em 30 dias saiu a certidão original com o nome dos pais adotivos. Hoje, é um menino que tem as suas inseguranças, todos gostam dele, é doente por futebol, vadio no estudo, tem personalidade forte, estava frequentando psicólogo, agora vai para o neurologista.

Já D2 relata que o menino teve atraso no desenvolvimento, levando mais tempo para firmar a cabeça, sentar, entre outros, pois nunca recebeu estímulo, com 11 anos ainda não consegue controlar totalmente os esfíncteres, fazendo xixi na calça e necessita de acompanhamento para higienizar-se corretamente.

À medida que a criança vai conhecendo a mãe como um ser humano, ela quer retribuí-la pelo que forneceu, assim vai aprendendo a ser um ser humano conservando este momento de carinho e atenção. Quando a maternagem não é bem realizada, a criança cria um falso self, ou seja, uma imagem falsa de seu ambiente, de sua mãe, por falta de cuidados. E, por consequência disso, conhece o mundo de forma precoce e pode ter consequências em seu desenvolvimento, implicando na maioria das vezes em dificuldades de aprendizagem que vão aparecer em idade escolar.

D1 que não conseguiu realizar uma boa maternagem, diz que o seu filho “se exclui na escola, não participa, é calado, tímido, mas em casa é falante, brincalhão, no âmbito escolar tem poucos amigos e dentro da sala de aula é o menino do fundão, a professora falou que ele não tem expressão, tem dificuldade em português e matemática.”

D2 relata que “ele repetiu de ano pelo fato de ele não ler e não escrever direito, tem muita dificuldade, nunca conseguiu escrever um textinho, lê a frase e não interpreta. Tem dificuldade para escrever por conta da coordenação motora. A escola se queixa por ele ser um pouco agressivo.”

D3 também relatou que o processo de alfabetização foi difícil, demorou a ler e tem dificuldade na leitura e interpretação. É bom em matemática, mas no português lê e esquece.

Uma maternagem bem realizada, tranquila, contribui para um bom desenvolvimento, o que leva a um bom desempenho escolar.

M2 relata que o seu filho “Não tem problemas com amigos, faz a tarefa com facilidade e aprende fácil.”

M3 diz que sua filha “Sempre foi muito estudiosa nunca repetiu de ano e até o momento não teve dificuldades e não precisou de reforço. Gosta muito da escola que frequenta, onde sempre estamos em contato para ajudar no que for necessário.”

Alguns desses dados foram retirados da etapa diagnóstica chamada História Vital, a qual nos permite conhecer a história do sujeito e de que forma ocorreu a maternagem. Paín (p. 42)7 diz que:

A ‘história vital’ nos proverá de uma série de dados relativamente objetivos vinculados às condições atuais do problema, permitindo-nos, simultaneamente, detectar o grau de individualização que a criança tem com relação à mãe e a conservação de sua história nela.

Além de saber a história do sujeito, o qual muitas vezes já vai mostrar onde ocorreu a falha e originou a dificuldade ou o entrave na aprendizagem, é preciso compreender a forma de aprendizagem do sujeito, como ele aprende, ou seja, a sua Modalidade de Aprendizagem para poder realizar o tratamento e recuperar o que não foi desenvolvido. Descobri-la é encontrar onde aconteceu a falha ou a ruptura no desenvolvimento cognitivo e que está causando somente agora o problema na aprendizagem.

Muitos pais não sabem que a causa das dificuldades de aprendizagem de seus filhos tem origem lá no início da vida dos mesmos e que muitas vezes foi causada por própria falha deles, consciente ou inconscientemente. E em sua maioria acham que o problema está no filho. Como relata D5: “Ele não sossega, não para pra prestar atenção e fazer e tem preguiça de escrever.” Já D2 acredita que ele tenha hiperatividade, pois não para um minuto e está sempre imitando os movimentos da TV e do jogo com o corpo ou com a língua.

Para o sujeito aprender, ele necessita que tenha ocorrido tudo bem na construção da sua vida mental. Piaget10 nomeia de Estruturas Cognitivas as estruturas organizadas que possibilitam aos poucos o sujeito desenvolver a equilibração entre a assimilação e a acomodação que geram a aprendizagem. Essas mesmas desenvolvem-se em quatro períodos do desenvolvimento, em que acontecem os estímulos para o desenvolvimento, os reflexos do bebê, os primeiros movimentos, a imitação, os balbucios, as primeiras palavras, a exploração de objetos, a construção mental dos objetos, a imaginação, fantasia, linguagem, a socialização de pensamento, as operações e, por fim, a formação da razão e das estruturas de pensamento e personalidade.

Quando a dificuldade de aprendizagem é causada por um sintoma familiar e por uma maternagem malfeita, ocorre um entrave em uma dessas fases do desenvolvimento mental, sendo necessário identificar em que estrutura o sujeito está travado e trabalhar para que desenvolva o que não foi desenvolvido.

Fernández8 diz que a aprendizagem passa pelo corpo e que neste se inclui o prazer, e o mesmo move a aprendizagem. Se uma criança não teve o seu tempo respeitado, não teve alguém que lhe apresentou o mundo em pequenas doses, a dificuldade de aprendizagem vai revelar-se na escola com relatos como de acordo com D1: “ele se exclui na escola, não participa, é calado, tímido. A professora falou que ele não tem expressão, tem dificuldade em português e matemática.”, ou como de acordo com D2: “Na escola a maior dificuldade dele é português, porque ele não sabe ler, não consegue interpretar textos.”, ou como o relato da D3: “Tem dificuldade em português, esquece o que lê”.

Destaca-se, então, a importância de uma boa maternagem para o bom desenvolvimento das aprendizagens dos sujeitos.

 

CONCLUSÃO

Ao realizar o estudo de antecedentes do tema apresentado, foram encontrados poucos escritos sobre o mesmo; daqueles encontrados, em sua maioria eram escritos descrevendo a experiência dos autores do tema.

Desta forma, conclui-se que este trabalho é de grande relevância as futuras e atuais psicopedagogas e mamães, e para todos aqueles que desejam conhecer mais sobre a maternagem, que, para a Psicopedagogia, é uma das funções mais importantes que a mãe pode realizar na vida de um filho, pois ela vai ser a base para todo o desenvolvimento de suas aprendizagens.

Os objetivos desta pesquisa foram alcançados, por meio das entrevista foi possível perceber que as mães que realizaram a maternagem de forma tranquila, que se dedicaram a isso, contribuíram para que os seus filhos tivessem um bom desenvolvimento. No caso das mães que não conseguiram desenvolver uma boa maternagem, os seus filhos tiveram consequências em seu desenvolvimento, como demoraram mais que o tempo necessário para firmar a cabeça, sentar, engatinhar, bem como na escola apresentaram dificuldades de aprendizagem, em sua maioria na leitura e interpretação.

A constituição da maternagem para a Psicopedagogia se dá por meio da relação da mãe para com o filho nos primeiros meses de vida. É o período no qual a mãe conhece o bebê e doa-se por ele fazendo tudo por ele; aos poucos, a mãe vai ensinando o bebê a viver e conhecer o mundo. Sendo assim, a maternagem é de suma importância para um bom desenvolvimento e uma boa aprendizagem do sujeito.

Face ao exposto, a maternagem bem realizada contribui para um bom desenvolvimento do sujeito, pois as emoções, o desenvolvimento cognitivo, o desenvolvimento motor, as experiências foram proporcionadas de forma saudável e tranquila. Em contrapartida, uma maternagem malfeita gera consequências no desenvolvimento do sujeito, pois, em alguns casos, pode retardar o seu desenvolvimento, ou até mesmo causar um trauma emocional, levando o sujeito a ter um entrave em sua aprendizagem, que se não solucionado a tempo poderá causar dificuldades.

Sendo assim, é necessário a essas e todas as crianças com dificuldades ou entraves na aprendizagem procurem um atendimento clínico psicopedagógico a fim de resgatar essa maternagem não feita e desenvolver a aprendizagem travada.

 

REFERÊNCIAS

1. Winnicott DW. A criança e o seu mundo. Tradução Álvaro Cabral. 6a ed. Rio de Janeiro: LTC; 2014.

2. Winnicott DW. Da pediatria à psicanálise: Obras escolhidas. Tradução Davy Bogomoletz. Rio de Janeiro: Imago; 2000.

3. Spitz RA. O primeiro ano de vida. Tradução Erothides Millan Barros da Rocha. Revisão Monica Stahel. 2a ed. São Paulo: Martins Fontes; 1998.

4. Monteiro MC. Um coração para dois: a relação mãe-bebê cardiopata [Dissertação de mestrado]. Rio de Janeiro: Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Departamento de Psicologia; 2003.

5. Oliveira MP. Melanie Klein e as fantasias inconscientes. Winnicott e-prints (São Paulo). 2007;2(2):1-19. [acesso 2018 Maio 14]. Disponível em http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-432X2007000200005

6. Bossa NA. A Psicopedagogia no Brasil: contribuições a partir da prática. Porto Alegre: Artes Médicas; 1994.

7. Paín S. Diagnóstico e tratamento dos problemas de aprendizagem. Porto Alegre: Artes Médicas; 1985.

8. Fernández A. A Inteligência Aprisionada. Tradução Iara Rodrigues. Porto Alegre: Artes Médicas; 1991.

9. Farias AR. O Desenvolvimento da Criança e do Adolescente segundo Piaget. 4a ed. São Paulo: Editora Ática; 2001.

10. Piaget J. A Formação do símbolo na criança: imitação, jôgo e sonho, imagem e representação. Tradução Álvaro Cabral e Christiano Monteiro Oiticica. Rio de Janeiro: Zahar Editores; 1971.

11. Oliveira SL. Tratado de Metodologia cientifica: Projetos de pesquisas, TGI, TCC, monografias, dissertações e teses. São Paulo: Pioneira; 1999. 320 p.

12. Gil AC. Como Elaborar Projetos de Pesquisa. 4a ed. São Paulo: Atlas; 2002. [acesso 2018 Maio 20]. Disponível em: https://professores.faccat.br/moodle/pluginfile.php/13410/mod_resource/content/1/como_elaborar_projeto_ de_pesquisa_-_antonio_carlos_gil.pdf

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1. Graduanda do Curso de Pós- Graduação Lato Sensu – Especialização em Psicopedagogia Clínica e Institucional da Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC), Criciúma, SC, Brasil
2. Docente do Curso de Pós- Graduação Lato Sensu – Especialização em Psicopedagogia Clínica e Institucional da Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC), Criciúma, SC, Brasil

 

Correspondência

Beatriz Beloli de Oliveira
Rua Angela Ubiali - Bairro Primeira Linha
Criciúma, SC, Brasil - CEP 88816-455
E-mail: biazinha_bo@hotmail.com

Artigo recebido: 29/11/2018
Aceito: 08/02/2019

Conflito de interesses: Os autores declaram não haver


Trabalho realizado na Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC), Criciúma, SC, Brasil.