Ponto de Vista - Ano 2018 - Volume 35 - Edição 108

O “problema” dos problemas de aprendizagem

RESUMO

Este artigo tem como objetivo apresentar algumas reflexões teóricas sobre os chamados problemas de aprendizagem, tema este cada vez mais frequente no contexto escolar. As reflexões apresentadas apoiam-se nos pressupostos teóricos da Psicologia Histórico-Cultural, apresentando uma análise crítica sobre a presente temática. Como resultados, o artigo busca demostrar a necessidade de ressignificar o conceito de aprendizagem, assim como as dificuldades que permeiam este processo, compreendendo o desenvolvimento humano não pela deficiência/falta, mas sim pela sua potência.

Palavras-chave: Psicologia Escolar. Psicologia Histórico-Cultural. Psicopedagogia. Problemas de Aprendizagem.

ABSTRACT

This article aims to present some theoretical reflections about the socalled learning problems, a theme that is increasingly frequent in the school context. These reflections were based on the theoretical assumptions of Historical-Cultural Psychology, presenting as a critical analysis of the theme. As results, the article seeks to demonstrate the need to re-significate the concept of learning as well as the difficulties that permeate this process, understanding human development not by deficiency / lack but by its potentiality.

Keywords: School Psychology. Historical-Cultural Psychology; Psychopedagogy. Learning Problems.


INTRODUÇÃO

Em minha trajetória acadêmica tive o prazer de ministrar uma disciplina intitulada “Problemas e distúrbios da aprendizagem” em um curso de pós-graduação em Educação Especial. Em um processo dialético em que na difícil tarefa de ensinar o aprendizado também acontece simultaneamente, este artigo nasce da necessidade de objetivar algumas de minhas reflexões ao longo deste processo.

As reflexões trazidas neste artigo são fruto de um modo quase em extinção, mas necessário de olhar a realidade, em um movimento de busca permanente de novos elementos e novas possibilidades de significação para processos que são tão cristalizados, como os chamados problemas e distúrbios de aprendizagem.

Por muito tempo, e ainda nos dias atuais, a Psicologia Escolar se ocupou da busca pelos problemas e distúrbios da aprendizagem, sendo reconhecida e demandada a resolver estes problemas concebidos como limitadores do processo de desenvolvimento de alunos. O foco da Psicologia era, e ainda continua sendo na prática de alguns profissionais, a busca pelo problema ou distúrbio1-3. Tal concepção, que consiste na centralização do problema no aluno, no que este tem de déficit em seu processo de aprendizagem, acaba gerando um novo problema que se refere a sua não superação. Ainda, a não superação favorece que o Psicólogo Escolar seja alvo de muitas críticas pelos atores escolares, tendo como justificativa de que nada mudou3,4.

O mesmo ocorre com outros profissionais que atuam no contexto escolar e os próprios educadores, que ao focalizar os problemas e distúrbios da aprendizagem se privam da possibilidade de experienciar a potência humana – conceito este central que deveria ser o norteador das ações na escola, mas que muitas vezes é esquecido quando a lógica é pautada em seu oposto. Este é um dos “problemas” dos problemas de aprendizagem – não somente a criança é prejudicada com o diagnóstico, mas também o profissional que não favorece a mudança das condições de ensino-aprendizagem.

Na difícil tarefa de buscar caminhos para os problemas de aprendizagem é importante resgatar o conceito de aprendizagem e sua contrapartida, o não aprendizado (muitas vezes nomeado de dificuldade ou distúrbio da aprendizagem). Sobre este tema, abordarei a seguir.

O que é aprendizagem? Buscando caminhos para compreender os problemas de aprendizagem

Inspirado nas ideias de Vygotsky5,6, compreende-se o conceito de aprendizagem como a capacidade humana de apreender a realidade material e simbólica, em um processo contínuo que ocorre ao longo da vida.

Para Vygotsky5-7, a aprendizagem ocorre a partir da necessidade apresentada pelo sujeito em sua relação com o contexto social. O surgimento desta necessidade ocorre no momento em que o repertório de conhecimento do sujeito já não é suficiente para lidar com a realidade na qual está inserido. E este processo é acompanhado por momentos de crises, de sentimentos negativos, visto que o sujeito entra em contato com o seu “não saber”, com sua falta e a dificuldade de compreensão e adaptação ao meio. Isto é acentuado quanto maior a complexidade dos conceitos que o sujeito precisa aprender.

Vygotsky5, inspirado nos postulados das ideias de Marx, vai relacionar a questão da aprendizagem ao processo de trabalho dizendo que aprender é trabalhoso, visto exigir um esforço psíquico do sujeito. Portanto, é necessário desconstruir a ideia de que aprender é algo somente prazeroso, discurso bastante proclamado nos dias de hoje. Obviamente que a aprendizagem é acompanhada muitas vezes de emoções positivas, entretanto, isto não é a regra. Geralmente, o que ocorre é que a emoção positiva acompanha o resultado da aprendizagem, ou seja, quando o sujeito consegue apreender o conceito e ampliar sua visão de mundo.

O que quero destacar com esta reflexão é que aprender é trabalhoso, exige esforço e a dificuldade de aprendizagem é algo extremamente comum e esperado a qualquer pessoa. A dificuldade tanto faz parte do desenvolvimento como o promove, uma vez que, quanto maior a dificuldade, maior é o desenvolvimento do pensamento e demais funções psicológicas.

Além disto, outro importante fator a ser considerado sobre o processo de aprendizagem é que ele ocorre, segundo Vygotsky5, nas interações, que têm a fala como principal instrumento mediador. É pela fala que conseguimos nos apropriar da realidade simbólica, dos valores e crenças construídos socialmente, ao mesmo tempo em que é pela fala que estes mesmos aspectos são criados e passam a fazer parte da cultura.

Portanto, se a aprendizagem ocorre nas interações sociais e é fruto de um processo histórico, isto significa que ao olhar para a dificuldade de aprendizagem é preciso olhar também para estes dois fatores como elementos fundamentais. No entanto, via de regra, o que observo no cotidiano escolar é a compreensão dos problemas de aprendizagem como causa de um problema individual, biológico. Este é um dos “problemas” dos problemas de aprendizagem.

Ao pensar na dificuldade de aprendizagem, é importante analisar o contexto no qual este processo ocorre, levando em consideração o ambiente escolar, a relação familiar, o conceito aprendido e o aluno. Neste sentido, ressalto a importância da análise contextualizada da dificuldade de aprendizagem, uma vez que na maioria das vezes ela remete a uma dificuldade em relação aos processos de ensino-aprendizado e como eles ocorrem na escola.

Segundo Leonardo et al.2, a escola é acostumada a ensinar a um padrão muito específico de aluno, e, quando tal padrão é desviado, a escola geralmente encaminha este aluno a um profissional (psiquiatra, psicólogo, psicopedagogo) com a queixa de dificuldade ou transtorno de aprendizagem.

Moyses & Collares8 apontam que o “não-saber/conhecer” sobre as reais causas da dificuldade de aprendizagem favorece encaminhamentos e tratamentos bastantes preocupantes, como a utilização de medicamentos que visam tratar o aluno concebido como aquele que é culpado por seu fracasso escolar.

Neste sentido, nota-se um processo na educação cada vez mais crescente de buscar padrões de aprendizagem, enquadrando o aluno em um padrão patológico ou normal de desenvolvimento.

O normal x patológico nos problemas e distúrbios da aprendizagem

Na sociedade ocidental, a busca pela padronização das pessoas é cada vez mais recorrente. Lidar com a diversidade e a diferença parece ser algo cada vez mais difícil, sendo atribuído a algumas instâncias sociais o poder de fiscalizar e tratar os indivíduos que socialmente não se enquadram nos padrões de normalidade8. Mas, quais são estes padrões? No que eles consistem? Quem dita o que é normal e o anormal? Estas são questões de difícil resposta, visto sua fluidez e inconstância que se modifica o tempo todo a depender do período histórico e social em que se vive.

Por muitos anos, a religião foi a instância que fiscalizava e era responsável pela ordem social, entretanto, nos dias atuais cada vez mais a medicina vem ocupando este lugar, colocando-se na função social de responder o que é anormal e normal, o que é saúde e doença. Neste campo, psiquiatras e neurologistas sofisticaram e desenvolveram mecanismos para explicar o desenvolvimento humano, especializando-se em casos em que há um desvio em relação ao padrão comportamental normal.

E, neste cenário, é crescente a transformação de problemas inerentes à vida, que tem em sua base aspectos sociais e políticos, em distúrbios individuais, de ordem biológica, como ocorre em alguns casos de diagnóstico de distúrbios e problemas da aprendizagem. E, ainda, ao atribuir as dificuldades e distúrbios da aprendizagem a uma doença orgânica inerente ao sujeito, o caminho mais utilizado para solucionar este problema é a medicalização – fenômeno este cada vez mais crescente que atinge crianças e adolescentes em idade escolar8. Novamente, depara-se com mais um “problema” dos problemas de aprendizagem.

Sobretudo a partir dos anos 80, é observado um crescente número de enfoques teóricos, bem como sua consolidação, que vão conceber as dificuldades e distúrbios da aprendizagem como um problema neurológico, envolvendo certa limitação das sinapses cerebrais, sustentando a construção dos seguintes diagnósticos: dislexia, transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), entre outros8.

Para exemplificar este problema, em relação ao TDAH, nos últimos 10 anos cresceu espantosamente o número de casos de crianças e adolescentes diagnosticados, bem como o uso de metilfenidato como tratamento medicamentoso8.

A associação entre aprendizagem e desenvolvimento neurológico é algo bastante discutido pela neurociência e não há dúvidas de sua relação. É consenso na literatura científica atual que a aprendizagem agiliza as sinapses cerebrais, e o contrário também, que a “não aprendizagem” limita o desenvolvimento neurológico1,9. Entretanto, nesse processo entre desenvolvimento neurológico e o processo de aprendizagem coloca-se um peso maior neste primeiro, ou seja, como se o aspecto neurológico fosse o determinador da aprendizagem. Neste sentido, apreende-se este conhecimento para justificar a dificuldade de aprendizagem tendo como causa uma disfunção neurológica, e aí reside o problema na grande maioria dos casos: transformam-se problemas sociais em doenças8.

Ainda, frente a este problema nota-se que a área da saúde, em especial a medicina, tem ocupado lugar de destaque na explicação dos problemas de aprendizagem8,10. Neste sentido, cabe questionar: a Pedagogia, enquanto área do conhecimento especializada nos processos de ensino-aprendizagem, o que tem contribuído para a superação e explicação dos problemas de aprendizagem? E a Psicologia, enquanto área que possui conhecimento sobre o desenvolvimento humano e que poderia contribuir para a superação destas questões? Nota-se um maior predomínio do saber médico na explicação e encaminhamento dos problemas e distúrbios da aprendizagem, havendo uma participação um tanto quanto passiva da Pedagogia e Psicologia. Este seria um outro “problema” envolvido nos problemas de aprendizagem.

É importante destacar que o desenvolvimento de um pensamento crítico sobre as dificuldades e distúrbios da aprendizagem não exclui de modo algum a existência de deficiências e doenças que afetam o desenvolvimento cognitivo do sujeito e limitam seu processo de aprendizagem. No entanto, estes são casos raros, não correspondendo à quantidade de alunos que encontramos hoje sendo diagnosticados com distúrbios da aprendizagem e em tratamento medicamentoso.

Portanto, o desafio lançado neste artigo é a necessidade de se pensar o desenvolvimento humano não pela sua falta, deficiência, mas sim pela suas possibilidades ou potencialidades. E, neste sentido, a Pedagogia, a Psicopedagogia e a Psicologia Escolar, enquanto áreas do conhecimento que contribuem para a compreensão do desenvolvimento humano na interlocução com os processos de ensino e aprendizagem, podem trazer muitas contribuições a fim de promover uma educação escolar que seja de fato para todos.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao longo deste artigo, busquei destacar em vários momentos os “problemas” dos problemas de aprendizagem e seus impactos para a construção de uma escola que seja de fato inclusiva. Cada vez mais torna-se necessário reafirmar que o caminho para a superação dos problemas de aprendizagem não está no âmbito do indivíduo ou em sua condição biológica, mas sim nas mediações que geram e promovem a potência de ação e de desenvolvimento do ser humano.

Neste sentido, psicólogos, psicopedagogos e profissionais da educação têm o desafio de pensar e construir estrátegias e caminhos de ação para a promoção deste potencial humano. Ações que favoreçam que estes alunos sejam afetados em suas potencialidades, em um processo dialético em que na busca por compreender o sujeito e seu processo de desenvolvimento novos afetos são construídos e tornam-se favorecedores do processo de ensino-aprendizagem.

Mas como promover tal potencial humano? Como favorecer o desenvolvimento do sujeito? Estas são questões que merecem ser discutidas envolvendo as diversas áreas do conhecimento que dialogam com os processos educativos, como por exemplo a Psicologia, a Psicopedagogia e a Pedagogia. Para tanto, vários autores têm oferecido caminhos metodológicos para uma prática pedagógica crítica e voltada para o desenvolvimento das potencialidades humanas11-14, centralizando-se nas mediações promotoras da afetividade e dos processos educativos. Para mim, este seria o caminho para a superação dos chamados problemas de aprendizagem.

 

REFERÊNCIAS

1. Angelucci CB, Kalmus L, Paparelli R, Patto MHS. O estado da arte da pesquisa sobre o fracasso escolar (1991-2002): um estudo introdutório. Educ Pesq. 2004;30(1):51-72.

2. Leonardo NST, Leal ZFRG, Rossato SPM. A naturalização das queixas escolares em periódicos científicos: contribuições da psicologia histórico-cultural. Psicol Esc Educ 2015;19(1):163-71.

3. Guzzo RSL. Formando psicólogos escolares no brasil: dificuldades e perspectivas. In: Weschsler SM, org. Psicologia escolar pesquisa: formação e prática. Campinas: Alínea; 2001. p. 75-93.

4. Souza VLT. A constituição identitária do professor de psicologia: quem forma o formador? Psicol Ensino Form. 2014;5(1):64-82.

5. Vygotsky LS. Pensamento e linguagem. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes; 1991.

6. Vygotsky LS. Obras Escogidas. Tomo II. Madrid: Vysor Aprendizaje y Ministerio de Cultura y Ciencia; 2001.

7. Vygotsky LS. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores.7ª ed. São Paulo: Martins Fontes; 2007.

8. Moysés MAA, Collares CAL. Control y medicaliación de la infancia. Desidades 2013; 1:11-21.

9. Sampaio S, Freitas IB. Transtornos e dificuldades de aprendizagem: entendendo melhor os alunos com necessidades educativas especiais. Rio de Janeiro: Wak Editora; 2011.

10. Asbahr FSF, Lopes JS. A culpa é sua. Psicol USP. 2006;17(1):53-73.

11. Souza VLT, Luz AFS. As interações em sala de aula nos terceiros anos do ensino fundamental. Inter Psicol. 2017;21(2):137-46.

12. Jesus JS, Souza VLT. Os sentidos da dificuldade de aprendizagem para professores: reflexões da perspectiva da Psicologia Histórico- Cultural. Psicol Argum. 2017;35(88):33-44.

13. Marsiglia ACG, Saviani D. Práticas pedagógicas alfabetizadoras à luz da psicologia histórico-cultural e da pedagogia históricocrítica. Psicol Est. 2017;22(1):3-13.

14. Souza VLT. Psicologia e Compromisso Social: reflexões sobre as representações e a identidade do Psicologo escolar-educacional. Rev Eletr Psicol Polít Públicas. 2009;1(1):14-34.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Professora-Doutora, Centro Universitário de Jaguariúna (UniFAJ), Jaguariúna, SP, Brasil

 

Correspondência

Eveline Tonelotto Barbosa Pott
Avenida José Pancetti, 1164 – Vila Proost de Souza
Campinas, SP, Brasil –CEP: 13000-740
E-mail: evelinebarbosaa@gmail.com

Artigo recebido: 21/08/2018
Aceito: 09/09/2018

Conflito de interesses: Os autores declaram não haver


Trabalho realizado no Centro Universitário de Jaguariúna (UniFAJ), Jaguariúna, SP, Brasil.