Resenha - Ano 2018 - Volume 35 - Edição 107

Resenha: Como escrever um laudo neuropsicológico?


Como elaborar um laudo neuropsicológico? Qual sua estrutura? Que aspectos descrever e caracterizar? Como fazê-lo?

Estes são questionamentos frequentes entre profissionais e estudantes da área da Neuropsicologia. Isto se deve, parcialmente, ao fato de que a Neuropsicologia, enquanto área de conhecimento e de intervenção, é de caráter multiprofissional e interdisciplinar, o que gera controvérsias e dúvidas em torno da elaboração do laudo decorrente de uma avaliação neuropsicológica, dificuldade comum já identificada na prática clínica1. Na tentativa de responder a essa pergunta, as pesquisadoras Nicolle Zimmermann, Renata Kochhann, Hosana Alves Gonçalves e Rochele Paz Fonseca desenvolveram esta obra, publicada em 2016 pela editora Pearson Clinical Brasil.

A grande característica deste produto é sua apresentação, em formato semelhante a um guia prático, com exemplificações sobre a redação e a estilística textual de laudos neuropsicológicos, considerando os seus diversos contextos de avaliação e atuação, tais como clínica, escolar, hospitalar, forense, dentre outras. As autoras, com ampla experiência em avaliação e reabilitação neuropsicológica, descrevem orientações e sugestões detalhadas, que visam auxiliar na tomada de decisão clínica, bem como para a formação do profissional, discutem o uso de análises quantitativas e qualitativas e sua respectiva articulação, visto que isoladamente tais análises podem se mostrar insuficientes para abarcar a realidade observada na avaliação2, e tecem contribuições ao raciocínio clínico na avaliação neuropsicológica. O laudo neuropsicológico é compreendido como um desafio, uma vez que ele sintetiza as informações decorrentes do processo investigativo-avaliativo.

Ademais, reconhecendo-se que a Neuropsicologia é um campo interdisciplinar, os profissionais devem seguir os princípios éticos que regulam sua profissão e respeitar as diretrizes específicas à elaboração de documentos técnicos da profissão. Logo, a obra não se propõe a esgotar a discussão sobre o laudo neuropsicológico e sua elaboração, mas sim, propõe-se a problematizá-lo e discutir as diretrizes gerais e comuns.

Ao longo do livro, organizado de modo a contemplar as situações mais corriqueiras na prática da avaliação neuropsicológica, o leitor terá a oportunidade de deparar-se com exemplos de redações inadequadas, acompanhada de releituras adequadas, o que auxilia na compreensão sobre a escrita e redação técnica do laudo. Percebe-se que a obra divide-se em três partes: a primeira, contemplando dois capítulos, os quais tematizam sobre os aspectos teóricos, metodológicos e técnicos dos laudos neuropsicológicos; a segunda, contemplando quatro capítulos, versará sobre os laudos decorrentes dos diferentes campos da avaliação, bem como a partir de diferentes etapas do desenvolvimento humano. E, por fim, as autoras concluem, elaboram considerações finais e apontam aspectos práticos da escrita de laudos neuropsicológicos.

O laudo neuropsicológico é o desfecho concreto decorrente da avaliação e será utilizado não apenas pelo paciente, mas também por sua família e pela equipe de profissionais que, eventualmente, envolvam-se com a demanda do paciente. A leitura do presente livro é deleitosa e atraente por um conjunto de aspectos, que vão desde a estilística textual da obra, em função do uso de uma linguagem científica acessível, bem como devido à presença de conteúdos pertinentes à teoria e prática neuropsicológica. Esta obra é um guia sucinto, porém complexo, que garante ao leitor um refinamento no que diz respeito à elaboração deste documento neuropsicológico, além de apresentar uma compreensão global sobre as peculiaridades de avaliação neuropsicológica da infância ao envelhecimento e em diferentes contextos.

Trata-se de uma leitura imprescindível para iniciantes que se interessam pela problemática e/ou profissionais habilitados e desejosos à atuação nesta área. Esta obra traz reflexões imprescindíveis para a Neuropsicologia brasileira no que tange à apresentação dos resultados da avaliação neuropsicológica, tema ainda nebuloso na área.

 

REFERÊNCIAS

1. Almeida RS, Silva DS, Braz ML, Crispim MSS, Moura GC. Documentos psicológicos: os laudos e os problemas em torno de sua elaboração. Cad Grad Ciênc Hum Soc. 2015;3(1):131-48 [acesso 2018 Fev 17]. Disponível em: https://periodicos.set.edu.br/index.php/fitshumanas/article/viewFile/2332/1514

2. Winograd M, Jesus MVM, Uehara E. Aspectos qualitativos na prática da avaliação neuropsicológica. Ciênc Cognição 2012;17(2): 2-13 [acesso 2018 Fev 17]. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/cc/v17n2/v17n2a02.pdf

 

Resenha do livro: Zimmermann N, Kochhann R, Gonçalves HA, Fonseca RP. Como escrever um laudo neuropsicológico?. São Paulo: Pearson Clinical Brasil; 2016.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Doutor em Psicologia. Especialista em Neuropsicologia Clínica. Docente do Centro Universitário FACEX – UNIFACEX, Natal, RN, Brasil

 

Correspondência

Rodrigo da Silva Maia
Rua Itamarati de Minas, 2982/202 – Neópolis
Natal, RN, Brasil – CEP 59088-120
E-mail: rodrigo_maia89@yahoo.com.br

Artigo recebido: 27/02/2018
Aceito: 29/05/2018