Artigo Especial - Ano 2018 - Volume 35 - Edição 106

A psicopedagogia em um diálogo multidisciplinar*

RESUMO

O objetivo principal é situar a Psicopedagogia como área de conhecimento inter e multidisciplinar e o objetivo secundário é destacar o brincar como atividade fundamental na integração dos aspectos cognitivos, afetivos, relacionais e contextuais afinada com a aprendizagem humana. Considera-se a aprendizagem como adaptação ao meio circundante, não só do ponto de vista da natureza biológica do homem, mas principalmente como decorrência de sua capacidade de organização simbólica da realidade. O conhecimento hoje pauta-se na abordagem dos fenômenos considerados como fugidios e cambiantes, rompendo com a ilusão de que a racionalidade possa trazer soluções para os problemas do homem e a aprendizagem por seu caráter complexo e multideterminado deve ser pensada por modelos científicos pautados por um pensar relacional que delineia como forma de conhecimento a aceitação do movimento como possível maneira de convivência na atual realidade fluida e mutável. Ressaltam-se as características da Psicopedagogia como próprias do pensamento pós-moderno na abordagem da aprendizagem e o brincar como atividade primordial na sobrevivência simbólica do homem.

Palavras-chave: Psicologia Educacional. Conhecimento. Aprendizagem. Estudos Interdisciplinares. Jogos e Brinquedos.

ABSTRACT

The main goal is to situate the Psychopedagogy as inter and multidisciplinary area of knowledge and the secondary objective is to highlight the play as a fundamental activity in the integration of cognitive, emotional, relational and contextual aspects in tune with human learning. We considered learning how adaptation to the environment, not only from the point of view of man’s biological nature, but mainly as a result of man’s ability to symbolic organization of reality. The knowledge today is guided in the approach of the phenomena considered as elusive and changing, breaking with the illusion that rationality can bring solutions to the problems and learning for your complex and multidimensional character, must be analyzed by scientific models ruled by a scientific thinking that outlines how relational knowledge form that accepts the movement as a possible way of coexistence in the current fluid and changeable reality. Highlight the characteristics of Psychopedagogy as postmodern thought in the approach of learning and playing as a primary activity in symbolic of man’s survival.

Keywords: Educational Psychology. Knowledge. Learning. Interdisciplinary Studies. Play.


INTRODUÇÃO

A busca de compreensão a respeito da aprendizagem humana é acompanhada do interesse em compreender como o homem constrói conhecimento. Ao longo de seu desenvolvimento, o homem não só criou instrumentos e artefatos para lidar com a natureza, mas produziu ideias, conhecimentos, valores e crenças transmitidos pelos processos de aprendizagem1.

Os significados do estar e agir no mundo foram objetos de interesse registrados pelos gregos que se ocupavam, desde os sofistas, da ideia de uma educação, a qual visava o desenvolvimento do espírito humano, fazendo crescer as potencialidades do homem. Os sofistas, sendo espectadores do cenário de um Estado decaído, não deixaram de se ocupar da grande tarefa de educar visando o conjunto de todas as exigências ideais, físicas e espirituais, por meio de conhecimentos da Física, da Astronomia, da Matemática, da Literatura, dos Esportes, sem perder de vista a correção da postura e da conduta dos indivíduos em sociedade.

Portanto, inaugurando uma relação entre saber, conhecimento, ética e política organizada por um currículo que distinguia as várias áreas em que o jovem deveria ser educado, os sofistas almejavam uma educação para a cidadania com base na arete, ou seja, a transmissão de um conhecimento enciclopédico focado no saber e uma formação espiritual no ensino das virtudes2.

Este breve retorno ao pensamento grego tem a finalidade de marcar um momento inicial da preocupação com a produção do conhecimento e a tradição de uma aprendizagem no mundo ocidental pautada pela prática de fragmentar o conhecimento para melhor compreender a realidade e transmiti-la às futuras gerações. Se partirmos da consideração que os processos de produção de conhecimento e de aprendizagem são marcados pelo contexto da realidade vivida, frente ao momento atual de sobrecarga de informações, ressalta-se a fragmentação do conhecimento produzido por mudanças rápidas de valores e a proliferação de sentidos que exigem cada vez mais da capacidade de assimilação psicológica do ser humano.

No caso específico da educação das crianças e jovens, é prudente perguntar que parâmetros são considerados adequados face à atual realidade que se apresenta mutante e cujo conhecimento é fragmentado? É possível eleger conhecimentos duradouros? Que aprendizagens são esperadas? No caso das crianças e jovens que apresentam dificuldades de aprendizagem, que princípios normalizadores regem o tratamento na Psicopedagogia?

O objetivo deste artigo é situar a Psicopedagogia como área de conhecimento interdisciplinar, destacando suas propriedades na abordagem da aprendizagem humana em seu caráter complexo e multidimensional, a ser pensada por modelos científicos que rompem com a ideia de hipóteses substancializadoras sobre a prática da avaliação regida pela normatização dos processos. Entende-se por hipóteses substancializadoras aquelas que decorrem de concepções tradicionais de ciência como prática racional, regida por leis e princípios universais e hegemônicos sobre o homem.

O texto, de cunho teórico, se divide em quatro partes: 1) Consideração da realidade atual como complexa e riscos da fragmentação do conhecimento3-5; 2) Psicopedagogia no limiar da passagem da modernidade para a pós-modernidade6,7; 3) O brincar como atividade fundamental na construção de um conhecimento afinado com a subjetividade8,9; 4) Considerações finais.

 

FRAGMENTAÇÃO DO CONHECIMENTO E REALIDADE COMPLEXA

Os teóricos da complexidade3-5 têm afirmado que a sociedade atual desponta como uma sociedade do conhecimento que traz novas emergências e desafios ao homem. Diante da antiga necessidade de fragmentar o conhecimento e de analisá-lo em partes por domínios de múltiplas áreas, restam ao homem atual dificuldades de integrar, de conhecer e de organizar o saber, que assim resulta disperso.

As décadas de 1960 e 1970 foram marcadas por movimentos de grupos de teóricos e pesquisadores em busca da integração dessa forma de conhecimento fragmentado, bem como de elucidação de dúvidas e inquietações advindas da perplexidade do homem diante de seu estar no mundo10.

A multidisciplinaridade surge como forma alternativa de pensar o conhecimento, por meio da justaposição de disciplinas diversas, que foram ao longo do tempo fragmentadas em grandes áreas e subáreas, com o intuito de dar conta de analisar a realidade de maneira mais abrangente e, num passo além, a interdisciplinaridade galga um nível em que as disciplinas se integram num esforço de diálogo entre elas e não apenas de justaposição5.

Tais mudanças de perspectiva na forma de tratar o conhecimento surgem a partir da consideração da realidade como complexa e da constatação que o conhecimento fragmentado, ao analisar cada parte da realidade separadamente (a economia, a geografia, a matemática, a filosofia, a antropologia, e assim por diante), não favorece uma compreensão da multidimensionalidade de um fenômeno observado.

A vida humana não cabe em gavetas que a pretendem analisar por meio de fragmentos. As relações entre os homens geram fenômenos e situações altamente complexas, de cunho ético, político, social, cognitivo, econômico, que, para a sua compreensão, se faz necessária a participação, a interação e a colaboração das várias áreas do conhecimento.

Situam-se, nessa perspectiva, os processos de aprendizagem como um dos fenômenos de alta complexidade, cuja compreensão requer uma integração e um diálogo entre várias áreas que a seu tempo e dentro de seus interesses vêm se preocupando com a aprendizagem humana: a pedagogia, a psicologia, a antropologia, as áreas específicas da matemática, da geografia, da linguística, e assim por diante.

O homem mobiliza estruturas diferentes para aprender: a cognição, a linguagem, a sociabilidade, a motricidade, os sentimentos e emoções, estruturas essas que acionadas e mobilizadas ou imobilizadas, a depender dos processos relacionais, sociais, culturais, levam a possíveis aprendizagens.

 

PSICOPEDAGOGIA NO LIMIAR DA PASSAGEM DA MODERNIDADE PARA A PÓS-MODERNIDADE

No mundo de hoje, o homem é incitado a responder à multiplicidade de solicitações que advêm de vivências na diversidade de realidades, a objetiva, a subjetiva e a virtual11. O homem encontra-se imerso em um mundo cujo desenvolvimento tecnológico e científico acelera processos de produção, de comunicação e de aplicação dos conhecimentos. Isso gera uma dispersão na medida em que os sentimentos, os afetos, a cognição e a ação se multiplicam, em tempos recordes em vários focos12.

Os desafios que o mundo real e concreto traz, hoje, à compreensão do homem, o coloca diante de um meio mutável pela aceleração dos processos e pela transitoriedade das informações, que assomam como desafios à sua aprendizagem, uma vez que esta não guarda mais as características das formas e dos conhecimentos estanques e duradouros. Tem sentido, hoje, o envolvimento com as aprendizagens geradas pela ligação entre os conhecimentos que levam ao desenvolvimento das competências de ação, em um meio que se mostra mutável e transitório.

O que têm em comum todos esses fenômenos é que eles se constituem quase como um caráter universal, globalizante da realidade, o que nos leva a pensar sobre as inquietações do homem atual que, independente do grupo social ao qual pertence, vê-se arrastado no turbilhão da inquietude gerada pelas pressões de adaptação e de produtividade, numa sociedade que não mais oferece parâmetros seguros para a sua sobrevivência.

São diversos os domínios da realidade e da existência, todos igualmente válidos, se bem que não igualmente desejáveis, o que implica em aceitar que a única constância e estabilidade diz respeito às possibilidades de coerência própria na constituição de cada forma de realização na sintonia com um dado domínio de realidade. Ou seja, é necessário aprender a conviver e coexistir com diferentes domínios de realidade igualmente legítimos.

O modelo de ciência que dominou na modernidade e persistiu ao longo do século XIX e meados do século XX preconizou a possibilidade de se confiar em hipóteses substancializadoras e em um controle do fugidio e cambiante nos fenômenos. Isto trouxe por um tempo a ilusão de que a racionalidade e o conhecimento poderiam trazer soluções para os problemas do homem. Entretanto, esse tempo está ultrapassado, surge em seu lugar um pensar relacional e se delineia como forma de conhecimento a aceitação do movimento como possível maneira de convivência na atual realidade fluida e mutável6.

E a Psicopedagogia, o que tem a ver com tudo isso? Nascida no limiar da passagem da modernidade para a pós-modernidade, a Psicopedagogia já nasce com um espírito condizente a essa nova realidade fluida e transitória. A Psicopedagogia é gestada pelo trabalho de profissionais, de várias áreas do conhecimento (educadores, médicos, psicologistas, sociólogos, linguistas), que se debruçaram na busca de compreensão das dificuldades daqueles que resistiam e não se adaptavam, daqueles que não aprendiam e não correspondiam a uma ideia de normatização dos padrões de desempenho, daqueles que se negavam em aceitar a imposição de um conhecimento único e hegemônico, quando o mundo já apontava para a diversidade e a complexidade dos fenômenos vivenciados.

A Psicopedagogia nasce, portanto, num momento de cisão histórica do modelo de ciência hegemônico, que requer novas formas de pensar o conhecimento7. O conhecimento é uma construção que os homens fazem como decorrência de relações concretas de vida, acerca de si e do outro, assim, diante da complexidade do mundo vivido hoje, as ciências em geral e as ciências humanas e sociais das quais a Psicopedagogia faz parte obrigam-se a organizar um conhecimento que dê conta de pensar o homem em sua vivência da contradição que o coloca frente a inúmeros desafios que ameaçam sua própria possibilidade de compreensão e de autossustentação no mundo.

Retorna-se, assim, às questões que se colocam no início deste texto sobre quais as demandas de aprendizagem que se impõem hoje. Como possíveis respostas, podem-se destacar as aprendizagens que se sustentam em três planos integrados que constituem as efetivas mediações da existência humana: a ação pelo trabalho, a sociabilidade e a subjetividade13.

O homem, como ser de relações, constrói as referências de si mesmo por meio de suas ações, operações e intervenções na natureza e na realidade circundante pelo seu trabalho. A prática produtiva e a prática política dos seres humanos são atravessadas por uma terceira dimensão de seu agir, a prática subjetiva, construída numa tessitura tanto individual como coletiva, pelos arranjos dos elementos objetivos e subjetivos presentes nessas relações13.

As condições de vida no mundo atual trazem, entre outros desafios, uma superposição na vivência dos fenômenos reais, imaginários e virtuais, que impõem uma nova lógica das categorias de tempo e espaço, ameaçando as antigas sustentações e equilíbrio na compreensão do mundo. Estamos diante do homem cujo risco é perder o contato direto consigo próprio, mergulhado nas intensas solicitações que o mundo lhe impõe, fazendo com que se distancie de si mesmo e de sua história.

A inquietude do homem da atualidade se constitui em desafio que requer das ciências humanas uma transitividade entre a rigidez e a fragmentação, mantendo o princípio da diversidade e da criatividade, nem saudosismo, nem fuga frente a uma realidade tão cambiante e desagregadora. Esse é o desafio de realização das propostas multidisciplinares e interdisciplinares, a integração dos vários conhecimentos sobre o homem e a aproximação desses conhecimentos para revertê-los em maior compreensão sobre as imensas potencialidades de enfrentamento dos obstáculos ao seu desenvolvimento como ser humano. Esse é o desafio da Psicopedagogia como área inter e multidisciplinar.

Nestas reflexões sobre o mundo vivido hoje se colocam como foco as crianças e os jovens que sofrem as consequências desses efeitos diretamente em seus processos de aprendizagem e do consequente desenvolvimento que deles decorrem. Vem à mente o quanto recai sobre a criança e o jovem uma expectativa de corresponder aos anseios de uma sociedade que quer um bom comportamento, mas que não dispõe de parâmetros mínimos de referência para esses comportamentos, que não é capaz de declinar princípios éticos de convivência e de sociabilidade.

Uma sociedade que tem no movimento incessante, na rapidez dos acontecimentos e na superposição das tarefas o seu estilo de viver. Mas, que, no entanto, se mostra uma sociedade pouco tolerante com a diferença, e desenvolveu como prática o encaminhamento para avaliação psicológica, médica e psicopedagógica as crianças que não respondem ao esperado e são taxadas de disléxicas, hiperativas, pouco esforçadas, alienadas.

Uma sociedade que perdeu o contato com as suas raízes e mergulha no afã do aqui e agora, nas inúmeras tarefas a realizar e não se detém para incorporar valores e significados daquilo que faz. O homem que abandonou a sua natureza ludens para impor o fardo de um trabalho árduo e sem sentido; que leva as crianças e os jovens ao consumo exagerado no e do aqui e agora; e leva também aos consultórios aqueles que perdem e necessitam resgatar o sentido de suas existências e de suas aprendizagens.

Para incorporar a ideia de amarração das várias dimensões do homem que se integram em seu processo de ser e estar no mundo, portanto, de aprender, a Psicopedagogia coloca o foco na possibilidade de resgatar os fios condutores das vivências dos sujeitos como forma de encontrar o elo perdido em algum momento. E é no brincar que a Psicopedagogia encontra a possibilidade de resgatar esse elo.

 

O BRINCAR COMO ATIVIDADE FUNDAMENTAL NA CONSTRUÇÃO DE UM CONHECIMENTO AFINADO COM A SUBJETIVIDADE

Do ponto de vista da abordagem histórico-cultural há uma profunda relação entre os aspectos cognitivos e afetivos integrados na ação humana.

O homem está imerso em um mundo mediado por recursos socioculturais, de objetos, instrumentos, linguagem, que criam as múltiplas possibilidades de ser, estar e de criar significações de seu estar no mundo. O brincar dentro desta acepção se destaca como atividade fundamental na construção da subjetividade humana. O brincar, como atividade eminentemente carregada de significações, é a primeira manifestação da emancipação da criança em relação às restrições situacionais; é a possibilidade de criação de uma situação imaginária, espontânea e voluntária14.

O documentário intitulado Tarja Branca9 traz depoimentos de personalidades do mundo cultural, artístico e acadêmico que testemunham sobre a importância da brincadeira em seu próprio desenvolvimento pessoal. Por meio das lembranças, os sujeitos entrevistados vão expondo as memórias acerca de suas vivências infantis:

“Eu vim de uma cidade do Sertão da Bahia e... naquele tempo se brincava muito, não havia televisão. Eu era boa, hoje estou destreinada, mas eu era boa nas cinco pedrinhas... eu sou capaz de me lembrar, quando ela subia bem e que descia na axial, e batia na outra pedrinha na minha mão, o estalo que dava, eu sinto isso hoje, ainda ouço [estala os dedos e aproxima o ouvido]” (Lydia Hortelio, professora de música, pesquisadora).

“Eu nasci no subúrbio de Washington, nos Estados Unidos... o consumismo era o que se tinha para fazer. Quando eu tinha oito anos de idade, eu podia entrar no parque com minha bicicleta e podia ficar livre com meus amigos” (David Reeks, documentarista).

Apreende-se o quanto essas lembranças são carregadas de elementos cognitivos-afetivos que guardam as sensações corporais das experiências vividas. Os diferentes modos de brincar e as diferentes denominações dadas às brincadeiras fazem transparecer ao mesmo tempo a universalidade e a especificidade da brincadeira enquanto prática cultural15.

O jogo das cinco pedrinhas citado pela professora e pesquisadora pode ter outras denominações como cinco-marias, almofadinha, saquinhos, mas independentemente de quem e onde se brinque, será sempre o mesmo jogo que desafia a criança a lançar para o ar uma ou mais pedrinhas (saquinhos, almofadinhas) e voltar em busca das que restam no chão para serem resgatadas e incorporadas à que retorna de sua queda vertical. Uma espécie de for/da** que, salvo outras interpretações, possibilita à criança testar sua necessidade de domínio sobre uma situação momentaneamente sem controle, pela própria ousadia de distanciar de si o(s) objeto(s), para rapidamente recuperá-lo(s).

É nessa junção da vivência ao mesmo tempo individual e coletiva que os entrevistados vão desfiando suas concepções sobre o brincar:

“Brincar é uma coisa do homem, do ser humano, é uma forma de expressão... ela vem de diferentes formas nas diferentes etapas da vida, mas ela está presente... sempre” (Renata Meirelles, pesquisadora de brinquedos e brincadeiras, documentarista).

“O essencial do brincar é liberdade de tempo, liberdade de espaço e liberdade de criação” (David Reeks, documentarista).

“Então, o brincar é uma atividade do espontâneo e nesse sentido eu poderia dizer...hoje eu acredito nisso, é a linguagem da alma, é instantânea, direta” (Maria Amélia Pereira, pedagoga).

As motivações e disposições humanas básicas, tais como o lançar-se nos desafios, o medo, o ataque, a proteção, a competição, são algumas das manifestações que se concretizam nas diversas formas de brincadeiras: pique, pega-pega, amarelinha, cipozinho queimado, rato-na-toca, esconde-esconde, casinha, peteca, pipa, pião, cinco pedrinhas, etc, repetidos e recriados em ambientes socioculturais distintos15.

Pensando com Brougère16, podemos ressaltar que a lógica da noção usual de jogo carrega um sistema de analogias e que, em determinadas culturas e em distintos momentos, nem sempre o jogo e a brincadeira foram considerados sérios; mesmo que ligado ao desenvolvimento e à educação da criança, geralmente era feita uma interpretação do jogo como oposição estruturante ao trabalho, ao útil e ao sério17.

Não é o caso do escopo deste texto entrar nessas discussões, pois de partida se considera o brincar numa acepção mais ampla e cultural como atividade primordial na sobrevivência simbólica do homem. A capacidade de uma criança de agir frente à realidade, independente dos objetos e das situações concretas que se apresentam, indica precocemente a capacidade do homem de ultrapassar o campo da percepção e adentrar o da criação dos níveis simbólicos da realidade14.

Em mais um trecho do documentário analisado, apreende-se a importância de considerar os significados simbólicos que se atrelam à atividade do brincar:

“ [...] Sopro no coração... enquanto meus irmãos jogavam bola, eu ia ler. Era onde eu sofria, torcia por alguém, enfrentava monstros tenebrosos, moinhos de vento com o Dom Quixote, corria com os Capitães da Areia... Li Manoel Bandeira aos nove anos de idade. Eu sou um brincante, um leitor brincante. A leitura me deu tudo isso” (Marcelino Freire, escritor).

“Eu acho que o brincar é o modo que a gente tem de organizar o nosso mundo, criando um mundo paralelo ao mundo que a gente vive mergulhado cotidianamente. [...] É uma necessidade biológica, eu acho que é uma necessidade primária, primordial, que a gente já nasce naturalmente com ela. [...] e, mais do que isso, eu acho que a gente tem que trazer o lúdico pra nossa vida, recuperar cada vez mais esse lúdico no cotidiano” (Antônio Nóbrega, multiartista).

“Eu encontrei um bando de crianças com uma pipa na mão e os outros atrás dizendo: batiza, batiza, batiza! Eu falei: Hei, o que que é isso, o que vocês estão batizando? Aí o menino disse: Aquela pipa, porque o menino usou o fio inteiro da linha, a pipa é batizada e ninguém mais pode cortar ela. E aí eu associei, brincar para mim é usar o fio inteiro de cada linha. Você está usando seu fio inteiro de vida, você está brincando” (Maria Amélia Pereira, pedagoga).

Assim, os depoimentos oferecidos pelos entrevistados possibilitam compreender a importância do brincar no desenvolvimento humano, não só da criança, mas ao longo da vida, como forma de sobrevivência simbólica que favorece a integração dos aspectos biológicos, psicológicos e culturais na tessitura dos fios da vida e dos significados de nossas existências.

O homem adoece quando perde a dimensão do sentido do seu estar no mundo. As ciências que poderão ajudá-lo a resgatar ou entrar em contato com os sentidos construídos e que configuram a sua existência não serão aquelas que assumirem o lugar de conhecimentos únicos ou hierarquicamente superiores, mas aquelas que se conjugarem e se debruçarem na compreensão do homem na sua complexidade.

As crianças têm dificuldades de aprendizagem quando não conseguem apreender o valor e os significados de aprender em suas vidas. A Psicopedagogia como área inter e multidisciplinar pode ajudar a resgatar os fios e os elos perdidos ao longo do processo de desenvolvimento e de aprendizagem da criança.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Pretendeu-se neste estudo refletir sobre a Psicopedagogia como área de conhecimento que, originariamente, nasceu no limiar da passagem da modernidade para a pós-modernidade, num momento de cisão histórica do modelo de ciência hegemônico, que abriu espaço para novas formas de pensar a realidade e compreendê-la.

O conhecimento que resulta das relações concretas de vida, diante da complexidade do mundo vivido hoje, é um conhecimento não só fragmentado, mas sujeito a intensas mudanças. As dimensões filosóficas, psicológicas e políticas da experiência existencial do homem pós-moderno analisadas por teóricos da complexidade possibilitaram ressaltar os aspectos fugidios e cambiantes da realidade frente à sobrecarga de informações, apelos motivacionais externos, proliferação de sentidos e não sustentação de valores como formas atuais de se viver.

A aprendizagem, por seu caráter complexo e multideterminado, deve ser pensada por modelos científicos pautados por um pensar relacional, que delineia como forma de conhecimento a aceitação do movimento como possível maneira de convivência na atual realidade fluida e mutável.

O destaque dado ao brincar como atividade fundamental na integração dos aspectos cognitivos, afetivos, relacionais e contextuais afina com a aprendizagem humana vista como adaptação ao meio circundante, não só do ponto de vista da natureza biológica, mas principalmente como decorrência da capacidade do homem de organização simbólica da realidade.

Esses elementos foram considerados fundamentais no destaque da Psicopedagogia como área inter e multidisciplinar cujo discurso e prática emergem em sintonia com as demandas da realidade atual na abordagem da aprendizagem, tendo o brincar como atividade primordial, favorecendo a sobrevivência psicológica daqueles encaminhados para seus espaços de atendimento.

 

REFERÊNCIAS

1. Castanho MIS. Sobre o sujeito que aprende. In: Barone LMC, Castanho MIS, Martins LCB, orgs. Psicopedagogia: Teorias de Aprendizagem. 2ª reimpressão. São Paulo: Casa do Psicólogo All Books; 2013. p. 15-35.

2. Araujo DV. As contribuições dos sofistas para o fenômeno da educação numa perspectiva contemporânea. Cad PET Filosofia, 2013;4(7): 53-64.

3. Morin E. A Cabeça Bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil; 2000.

4. Morin E. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez; Brasília: UNESCO; 2011.

5. Japiassu H. Interdisciplinaridade e patologia do saber. Rio de Janeiro: Imago Editora; 1976.

6. Bauman Z. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar; 2010.

7. Castanho MIS. Competências na Psicopedagogia: um enfoque para o novo milênio. Psicopedagogia. 2002;19(59):25-30.

8. Severino AJ. Filosofia da Educação construindo a cidadania. São Paulo: FTD; 1994.

9. Rodhen C. Tarja Branca. Documentário realizado por Maria Farinha Filmes e Instituto Alana. Direção Cacau Rodhen, produção Juliana Borges; 2013.

10. Morin E. A Cabeça Bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil; 2000. p. 16.

11. Castanho MIS, Zorzim TIJ. Internet, cultura do consumo e subjetividade de jovens. Pesqui Prát Psicossociais. 2017;12(1):36-53. Lipovetsky G, Serroy J. A cultura mundo: resposta a uma sociedade desorientada. São Paulo: Companhia das Letras; 2011.

12. Severino AJ. Filosofia da Educação construindo a cidadania. São Paulo: FTD; 1994. p. 52.

14. Vigotski LS. O papel do brinquedo no desenvolvimento. In: Vigotski LS. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes; 1998. p. 121-37.

15. Carvalho AMA, Pontes, FAR. Brincadeira é cultura. In: Carvalho AMA, Magalhães CMC, Pontes FAR, Bechara ID. Brincadeira e cultura: viajando pelo Brasil que brinca. Vol I. São Paulo: Casa do Psicólogo; 2003, p. 15.

16. Brougère G. Jogo e educação. Porto Alegre: ArtMed; 1998.

17. Brougère G. Jogo e educação. Porto Alegre: ArtMed; 1998, p. 35.

 

* Conferência de Abertura do IV ENCONTRO PSICOPEDAGÓGICO DA BAHIA “A psicopedagogia em um diálogo multidisciplinar”, promovida pela Associação Brasileira de Psicopedagogia – Seção Bahia. Universidade Católica de Salvador, 03 de novembro de 2017.
** For/da: jogo de carretel descrito por Freud a partir da observações do brincar de seu neto, numa oposição entre princípio de prazer e de realidade, em que, a criança jogando elabora a partida da mãe.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Psicóloga, psicopedagoga, mestre e doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP). Membro da Diretoria Executiva da ABPp - gestão 2017-2019. Docente do Curso de Psicologia da Universidade Paulista, UNIP - Campus Sorocaba, Sorocaba, SP, Brasil

 

Correspondência

Marisa Irene Siqueira Castanho
Av. Dr. Afonso Vergueiro, 2085/112 – Vila Augusta
Sorocaba, SP, Brasil – CEP 18040-000
E-mail: msiqueiracastanho@gmail.com

Artigo recebido: 14/02/2018
Aceito: 27/02/2018


Conferência de Abertura do IV ENCONTRO PSICOPEDAGÓGICO DA BAHIA “A psicopedagogia em um diálogo multidisciplinar”, promovida pela Associação Brasileira de Psicopedagogia – Seção Bahia. Universidade Católica de Salvador, 3 de novembro de 2017.