Artigo Especial - Ano 2017 - Volume 34 - Edição 105

Psicopedagogia, Psicopedagogo e a construção de sua identidade

RESUMO

A identidade do psicopedagogo é dinâmica no sentido de que ela se constrói a partir do conjunto de necessidades, crenças, teorias e práticas. Este conjunto manifesta-se através de um discurso que representa a abordagem psicopedagógica. A Psicopedagogia é uma praxis com diferentes estilos. Chegamos ao tempo no qual se faz necessária a construção de corpus linguístico, o qual paradoxalmente acolha os diferentes estilos/práxis, mas que também expresse um denominador linguístico comum que contribua para a identidade da categoria profissional.

Palavras-chave: Identidade. Psicopedagogia. Psicopedagogo. Diferentes Estilos.

ABSTRACT

The psychopedagogue’s identity is dynamic in the sense that it is built from a set of necessities, beliefs, theories and practices. This set is expressed through a discurse who represent the psychopedagogic approach. Psychopedagogy is a “praxis” with many styles. This is the time when it is necessary the construction of a linguistic “corpus” which paradoxically embraces diferent styles/praxis, but also expresses a common linguistic denominator which contributes to the identity of the psychopedagogic professional.

Keywords: Identity. Psychopedagogy. Psychopedagogue. Different Styles.


INTRODUÇÃO

Primeiro, quero agradecer o convite para dar continuidade a uma conversa que teve início no simpósio de São Paulo no ano de 2012. Posteriormente, esta conversa continuou em Florianópolis, no encontro de Psicopedagogos. Agora em Gramado (2013), será a terceira vez que terei oportunidade de “animar uma conversa sobre quem somos”. Pode parecer pueril e imaturo continuar perguntando “Quem somos?”; “A que viemos?”; “Para onde vamos?”; “Como seguimos?”. Considero essas perguntas vitais e perenes no sentido de que precisam continuar, pois impulsionam e alimentam o perfil/estilo/prática da Psicopedagogia Dinâmica, com a qual me identifico. As perguntas poderão ser úteis para fortalecer o eixo central da Psicopedagogia enquanto área de conhecimento e da categoria profissional. Entendo que o diálogo entre estas duas instâncias não é simples e fácil.

Nesta oportunidade, quero trazer um fragmento escrito pela mestra e amiga Ana Maria Rodriguez Muniz, psicopedagoga argentina, com a qual na década de 80 tive oportunidade de fazer a distinção entre duas abordagens: abordagem reeducativa, que se preocupava com o “fazer e a técnica”, e abordagem da Psicopedagogia Dinâmica, “preocupada” com aspectos relacionais, isto é, a subjetividade, além da cognição. Foi através da Ana Maria, nos grupos de estudo para formação continuada, que uma geração de profissionais de São Paulo teve conhecimento e acesso à proposta pioneira e inovadora de Sara Paín, psicopedagoga argentina. Na apresentação do livro por mim organizado, em 1999, Ana assim definiu a Psicopedagogia como disciplina:

“A Psicopedagogia, como disciplina que estuda e trabalha com as aprendizagens humanas, oferece um campo de intervenção, cujos limites são amplos. O próprio processo humano de aprendizagem é um fenômeno complexo, que envolve múltiplos fatores e desafia qualquer tentativa de explicação a partir de um discurso científico único.” (grifo meu)

Esse breve recorte da escrita de Ana ajuda a justificar minha inquietação com visões reducionistas de algumas tendências contemporâneas presentes na Psicopedagogia e áreas afins que desconsideram: a) complexidade do aprender; b) necessidade de se apoiar em diferentes áreas do conhecimento/disciplinas para compreender, explicar e intervir junto ao sujeito aprendente; c) os limites de uma avaliação estática fundada em padrões pré-estabelecidos; d) não valorização da relação dos envolvidos com o aprender, isto é, vínculo.

Antes de dar continuidade à minha exposição/reflexão, quero reiterar o convite para que surjam, no aqui e agora, novos questionamentos que poderão vir tanto do que será exposto como de outras inquietações relacionadas à temática. Escolho os seguintes temas para abrir a conversa: A) Identidade da Psicopedagogia e do Psicopedagogo: diálogos possíveis com diferentes descrições da Psicopedagogia; B) A linguagem no contexto psicopedagógico; C) Cientificismo e o científico na Psicopedagogia.

A) Identidade da Psicopedagogia e do Psicopedagogo: diálogos possíveis com diferentes descrições da Psicopedagogia.

Muitas teorias psicológicas, a partir de uma tradição científica iluminista, moderna ainda compreendem o conceito de identidade a partir da concepção que o desenvolvimento humano se organiza e é organizado ao redor de uma identidade que progride na medida em que o indivíduo avança numa certa direção, em geral única1. Nesse mesmo artigo, Moscheta, citando Hall (2006), lembra que o sujeito pós-moderno é aquele que não tem uma identidade essencial ou permanente, pois participa de diferentes sistemas culturais, assumindo em cada um deles contornos identitários diversos. A identidade é o resultado das experiências vividas pelo sujeito, sendo assim, a identidade é: histórica, transitória e contraditória.

Na pós-modernidade, a partir da contribuição das áreas do conhecimento como a Psicanálise; Sociologia; Filosofia começa-se a questionar a noção de sujeito/indivíduo tal como compreendida no Iluminismo, pois se compreende o caráter relacional da identidade. Como afirma Melucci, 2004, p. 15:2

“O eu” não está mais solidamente fixo em uma identificação estável: joga, oscila e se multiplica: Há jogo é a expressão usada na linguagem mecânica para indicar que a engrenagem não está rigidamente presa em seu encaixe. Diante desta folga o eu pode sentir medo e perder-se. Ou, então aprender a jogar.

A partir destas considerações releio meu caminho pessoal pela Psicopedagogia. Entro em contato com a minha história de vida pessoal e profissional, as quais se entrelaçam. Tive, e continuo tendo, oportunidades para fazer interlocuções com diferentes autores e formadores. Nesta caminhada pude traduzir para o meu estilo as contribuições teóricas que considero úteis, continuo fazendo leituras polifônicas, escuto as múltiplas vozes que me habitam. Apesar de traduzir para o meu dialeto/estilo, ainda percebo que continuo com mais perguntas, nem sempre respondidas, pois o “jogo na e da engrenagem” está presente. Nessa polifonia não há espaço para concepções totalmente fechadas e inquestionáveis. Este jogo, se por um lado angustia, por outro me mobiliza a continuar questionando e por isso mesmo continuar aprendendo e enriquecendo a disciplina Psicopedagogia.

Na minha trajetória pessoal, inicialmente a prática esteve em evidência, porém logo senti necessidade da compreensão teórica e do trabalho pessoal (análise) para sustentar minha agência psicopedagógica. Suponho que a ânsia por dominar ferramentas é uma demanda de quem inicia uma nova profissão, cuja origem acontece em cursos de especialização latu sensu. Eu vinha da prática institucional na coordenação como orientadora pedagógica.

Minha atual formação, ainda em andamento, é fruto de uma semeadura originária do conjunto de experiências: análise pessoal; grupos de estudos; supervisões com psicanalistas; formação em Psicanálise; a escrita do mestrado; contato com a proposta de Feuerstein; formação na Terapia Familiar de base sistêmica e construcionista social; mais recentemente, participação no grupo de estudos em Análise Pragmática do Discurso, APD, com as terapeutas Neyde Araujo e Naira Morgado3, cuja característica principal é compreender que a linguagem não é representacional, mas pragmática no sentido de como é usada singularmente.

Através dessas visitas territoriais fui construindo um dialeto para meu estilo de agência psicopedagógica. Não é possível saber quem inicia o dialeto, pois o mesmo se constrói numa relação dialógica: criatura e criador entendidos como diferentes autores, disciplinas e profissionais que contribuem para o surgimento de um “dicionário psicopedagógico aberto”.

Também leio e releio o caminhar da Psicopedagogia brasileira no artigo Rumos da Psicopedagogia Brasileira4, publicado na revista da ABPp. Nesse artigo aponta-se o surgimento da Psicopedagogia inicialmente através da prática clínica para atender àqueles que por diferentes razões não respondiam à demanda da escolarização. Minha crença atual é que a Psicopedagogia também pode e deve intervir dentro dos muros da Escola.

Justifico essa posição para dar conta de uma modalidade de escolarização: “escola para todos e cada um”. Dito de outra forma: o psicopedagogo está preparado como o especialista em aprendizagem para acompanhar a equipe pedagógica na adequação de programas, projetos, bem como atender às questões relacionais envolvidas no contexto escolar. O “professor tem a chave” na sala de aula, “o psicopedagogo tem a chave” para que a instituição Escola possa lidar melhor com a complexidade das questões envolvidas na rede composta pelos agentes envolvidos dentro e fora dos muros da instituição.

Convivemos com divergências e questionamentos nas definições e concepções sobre nossas práxis, mas, como disse anteriormente na ementa, é preciso:

“a construção de um corpus linguístico que, paradoxalmente, acolha os diferentes estilos/práxis, mas que também expresse um denominador linguístico comum que contribua para a identidade da categoria profissional.”

Sublinho a necessidade de distinguir as instâncias: área de conhecimento, isto é a disciplina Psicopedagogia, do profissional Psicopedagogo que transita na área a partir da singularidade/estilo/dialeto, efeito de sua identidade dinâmica.

Para analisar e compreender a complexidade da aprendizagem humana, faz-se necessária a utilização de múltiplas lentes, isto, é disciplinas. Não há como negar a existência e a presença das instâncias/categorias que nos permitem transitar com e entre diferentes disciplinas e áreas de conhecimento. As instâncias: multidisciplinaridade; interdisciplinaridade e transdisciplinaridade favorecem o diálogo entre as disciplinas promovendo aproximações para a compreensão “mesmo que provisórias” das vicissitudes e complexidade do ser humano para conhecer e aprender.

Embora o trânsito pelas diferentes disciplinas seja enriquecedor e útil, corre-se o risco de desviar o olhar do “viajante visitante”. Dito de outras formas: Como dialogar respeitando as escolhas pessoais, sem que as mesmas interfiram no que chamarei de “Integridade da Psicopedagogia”. A Associação Brasileira de Psicopedagogia vem nestes mais de 35 anos de existência se preocupando com a integridade da categoria profissional num espaço institucional que acolhe as diferentes praxis.

Urge trabalhar para evitar quebras/cortes dentro de nosso território profissional devido aos desafios impostos. Não são as diferentes escolhas teóricas, mas, o radicalismo de “Verdade” única. Este sim interfere negativamente na integridade da categoria profissional. Como enfrentá-lo? Como dialogar com a pluralidade de verdades? Seria o diálogo sempre possível? Não há respostas prontas. Acredito que a ética pode ser uma forma de limite que viabilize diferentes práxis, ela pode ser a “medidora de conflito”.

As ideias advindas do Construcionismo Social têm me ajudado a identificar, nomear e dialogar com diferentes formas discursivas com maior abertura. No texto Construcionismo social, um convite ao diálogo, (Gergen & Gergen, 2004) seus autores fazem distinção entre Verdade (única e indiscutível) e verdade (versão). Esta distinção pode, em parte, contribuir para pensar a ética como mediadora.

“Os cientistas geralmente argumentam que, através de seus métodos, eles conseguem chegar cada vez mais perto do mundo como realmente ele é....

Nem todas as ideias construcionistas desvalorizam as iniciativas científicas, mas, certamente, desafiam a ideia de que a ciência revela a Verdade”. Gergen & Gergen (2004), grifo meu

Estes autores construcionistas sociais referem-se às diferentes tradições de comunidades linguísticas (diferentes abordagens), as quais vão sendo criadas a partir da construção de crenças e valores e de identificações com diferentes compreensões teóricas. A ética neste contexto é a distinção entre Verdade e verdade. Relaciono esta distinção com o dito popular espanhol do poeta Campomar: “Nada es verdad, nada es mentira, todo es, segun el color del cristal con que se mira”.

A Linguagem é um mediador universal, ela constrói mundos. Ela é constitutiva, pois somos constituídos pela linguagem e na linguagem. Como afirma Grandesso, 2014

“Como seres humanos, estamos sempre envolvidos em gerar sentido para nossas vidas, e fazemos isso interpretando a nós mesmos e ao mundo a nossa volta, dentro de um sistema de linguagem e dos campos de sentido em que vivemos.”

B) A linguagem e a construção da identidade profissional.

Como mencionei anteriormente, a linguagem constrói mundos. A construção do termo PSICOPEDAGOGIA, que nomeia o campo de ação de uma categoria profissional, não surgiu repentinamente. Historicamente, outras denominações foram sendo utilizadas como: Pedagogia Terapêutica; Reeducação; Reeducação Psicopedagógica, até que finalmente os psicopedagogos admitiram e escolheram uma forma que expressasse a praxis e não apenas a prática.

O grupo que fundou a Associação “gastou horas a fio” na escolha dos termos Psicopedagogia e Psicopedagogo que envolveu discussões fundadas nas nossas experiências pessoais, pois vínhamos de formações diferentes. Mas, apesar das diferenças, havia um querer dialogar “com” e “entre” diferenças para fundar inicialmente a Associação Estadual de Psicopedagogos de São Paulo e posteriormente a Associação Brasileira de Psicopedagogia. Nossas conversas giravam em torno do “Quem somos?”. Percebíamos que nossas visitas e o trânsito pelas outras áreas do conhecimento, como a Psicanálise; Sociologia, Psicolinguística; Neurologia; Psicomotricidade, entre outras, eram úteis para compreender a complexidade envolvida no aprender.

O enriquecimento advindo da visita a outros territórios demandava tradução para o idioma psicopedagógico no território específico da Psicopedagogia. Estudar e compreender o ser aprendente a partir de diferentes áreas de conhecimento não nos faziam declinar de nosso objeto de estudo, a aprendizagem humana. Não nos tornávamos psicanalistas, sociólogos, linguistas, psicomotricistas. A Transdisciplinaridade serviu para enriquecimento da práxis a partir da leitura polifônica dos conteúdos das diferentes disciplinas.

Passados tantos anos da fundação da Associação Brasileira de Psicopedagogia, que surgiu inicialmente como Associação Estadual de Psicopedagogos de São Paulo, podemos afirmar que essa disciplina, e área de trabalho, distingue-se como especializada em Aprendizagem Humana em diferentes contextos. Academicamente, a formação profissional acontece em curso de pós-graduação latu sensu, cuja finalidade é formar especialistas. Dentro da categoria de especialização latu sensu, o desafio é dar continuidade à formação pois, o curso é “ pontapé inicial do jogo”, é preciso muita experiência, técnica e conhecimento para ser um “bom jogador”.

Questiono o uso dos termos híbridos neuro-aprendizagem; neuro-psicopedagogo; neuro-pedagogo; como expressão das escolhas teóricas do profissional cujo objeto de estudo é a aprendizagem humana. A linguagem não é inocente. Estas denominações ao privilegiar foco nos aspectos orgânicos, mais especificamente no cérebro, deixam de lado a visão do sujeito como um todo que se manifesta através da mente e de sua singularidade. Se a linguagem não é inocente, qual a utilidade e o sentido da inclusão do prefixo neuro? Como conversam entre si os conceitos de mente, cérebro, sujeito, subjetividade nesta concepção?

Uma contribuição importante dentro da valorização da linguagem no contexto psicopedagógico é o conceito do pragmatismo linguístico introduzido por Wittgenstein, na década de 40, que foi sendo assimilada na Filosofia. Como apontam as terapeutas Araujo e Morgado3:

“As teorias pragmáticas da linguagem têm um extenso e longo percurso na história da filosofia americana. Aqui seguiremos a tradição iniciada por Wittgenstein e Austin e desenvolvida pelos filósofos contemporâneos Donald Davdson e Richard Rorty. O pragmatismo linguístico afirma que a linguagem é um conjunto de habilidades naturais formadas por sons e marcas articulados com sentido, intenção e força performativa (...) Com a linguagem somos capazes de criar ou inventar coisas e eventos novos e imprevisíveis, inclusive de reinventar-nos.”

Como essa abordagem influi na identidade profissional e disciplinar? Se a linguagem faz mundo pela performatividade, há que se perguntar como está sendo construída essa identidade?

Atualmente, a comunidade científica e o público de modo geral estão familiarizados com termos Psicopedagogia e Psicopedagogo. A identidade do psicopedagogo é dinâmica no sentido de que ela se constrói a partir do conjunto de necessidades, crenças, compreensões teóricas e práticas. Esse conjunto complexo produz diferentes discursos que representam diferentes abordagens psicopedagógicas. Este é um fato incontestável e saudável.

Nos cursos especialização e nas supervisões, a maioria dos alunos em formação formula duas perguntas recorrentes: 1) O que nos diferencia de professores particulares? 2) Como lidar com a expectativa de resultados pedagógicos imediatos? Estas perguntas me convidam a fazer outra: qual a diferença entre um Psicopedagogo e de um Neuropsicopedagogo? Entre Educação e Neuroeducação? Pedagogia e Neuropedagogia? A que vieram essas denominações?

Continuando com a metáfora espacial: visitam-se territórios estrangeiros, mas, é necessário voltar para o TERRITÓRIO DA PSICOPEDAGO-GIA. Este possui um idioma próprio, o qual se manifesta através de diferentes dialetos/estilos/praxis que vão surgindo a partir das diferentes comunidades linguísticas que adotam determinadas tradições teóricas que por sua vez são atravessadas pelas contingências culturais; acasos; paradoxos, os quais são elementos enlaçados às biografias e identidades pessoais.

Entendo que o eixo central da Psicopedagogia é a “aprendizagem humana com suas vicissitudes”. Este eixo é o objeto de estudo, pesquisa e fundamentalmente é o “órgão de sobrevivência humana”5 e também seu destino, pois “nascemos para aprender” (Trocmé, 2006). Saber e considerar essas características da aprendizagem faz toda a diferença na ação pedagógica e psicopedagógica. Mas, paradoxalmente, aprender não é fácil nem natural, consequentemente as vicissitudes do aprender são condições pertinentes6. Isso não impede admitir a existência e a presença de dificuldades de aprendizagem que demandam cuidados específicos.

Vale retomar os termos Reeducação e Psicopedagogia Dinâmica. Na Reeducação o foco/lente é a prática e a exercitação para educar novamente e resolver a questão com a mudança de comportamento. Quando a lente usada para compreensão do conflito/problema é Psicopedagogia Dinâmica, a mudança é uma consequência de deslocamentos não apenas do sujeito, mas das relações e nas relações do mesmo com o seu entorno. As mudanças discursivas decorrem de novas formas de lidar com o aprender, como também pelo conteúdo das narrativas usadas para se descrever o modo como o aprendente se relaciona com o conhecimento e o saber.

Sara Paín foi quem primeiro nos apontou a necessidade de escutar o discurso dos adultos significativos para a descrição das hipóteses a respeito da origem das dificuldades. Sara também nos convida a olhar o todo através das quatro estruturas: corpo, organismo, estrutura simbólica/desejo e a cognição/inteligência. Poderíamos considerar essa concepção como pertinente ao corpus linguístico comum à categoria profissional? Quais seriam as consequências? Na prática significa considerar a subjetividade SEMPRE presente.

A construção de uma linguagem comum que defina e delimite o campo profissional do psicopedagogo é complexa não somente devido às diferentes concepções de práxis, mas, sobretudo, devido também à ampliação do campo profissional. Hoje, psicopedagogos estão inseridos em diferentes setores que não lhe eram familiares inicialmente, tais como empresas; hospitais; abrigos, entre outros. Não há como se pensar numa identidade fixa e fechada, pois são as novas demandas da sociedade que desencadeiam novas formas discursivas para o fazer psicopedagógico. A mobilidade identitária, além de demandar formação continuada, requer especializações construídas em ação para atender novas demandas.

Aceitar a existência de estilos/práxis/dialetos diferentes que descrevem um objeto comum, isto é, o ser que aprende, implica na construção de relações que envolvem ideais desafiadores como: acolhimento do diferente; disponibilidade para diálogo; curiosidade para conhecer diferentes pontos de vista; olhar para o diferente sem preconceitos. Não é suficiente a disponibilidade intelectual, cognitiva. A subjetividade está sempre presente na disponibilidade para negociar, confirmar, “calibrar o sentido” das diferenças nas descrições, nomeações e concepções dos termos usados.

É útil lembrar o percurso da Psicologia e da Psicanálise, as quais se expressam através de inúmeras linhas teóricas e de múltiplas formas de praticá-las. Será efeito da maturidade para lidar com a diversidade? Volto à pergunta: Qual a necessidade da adoção de termos que expressam outras disciplinas? Hoje, após anos de discussão a respeito de quem somos, o nome Psicopedagogia, embora composto de Psi e Pedagogia, “não é fruto híbrido” resultante de uma mistura das duas disciplinas, ela é OUTRA ÁREA DE CONHECIMENTO.

Tenho esperança de que a nossa Psicopedagogia com suas diferentes práxis/estilos/dialetos consiga também lidar com a diversidade sem necessidade de declinar de seu nome/identidade, construído ao longo do tempo e espaço. Enfatizo que a linguagem não é inocente. Cada ser humano tem um nome próprio resultado das escolhas parentais, as quais buscam um nome que faça sentido, também é o caso da Psicopedagogia.

C) Cientificismo e o científico na Psicopedagogia.

Nos cursos de especialização em Psicopedagogia, mestrados e doutorados em Psicologia e Educação docentes e alunos através de suas monografias, dissertações e teses vêm discutindo, problematizando e pesquisando temas relacionados às práticas psicopedagógicas em diferentes contextos. Alguns destes trabalhos têm sido publicados e são úteis para a divulgação de novos campos de ação psicopedagógica. As produções de escritas dentro de padrões acadêmicos contribuem para aproximação da Psicopedagogia com o científico, pois nesse contexto parte de questionamentos e fundamentação teórica para justificar o objeto de pesquisa. Estes trabalhos têm também contribuído para a implementação e ampliação da ação psicopedagógica.

Quando as vicissitudes do aprender atingem maior intensidade, costumam ser denominadas de transtornos da aprendizagem, sendo descritas em códigos internacionais de doenças, organizados por médicos. Esses códigos/dicionários identificam características gerais e específicas para as “doenças da aprendizagem”. Os códigos se fundamentam nas pesquisas científicas quantitativas feitas pela categoria profissional da área da saúde, mais especificamente de determinadas comunidades linguísticas. São importantes e podem complementar análises feitas pelos especialistas na área da aprendizagem. Como venho apontando, as várias lentes enquanto disciplinas colaboram para a compreensão e intervenção psicopedagógica da dificuldade de aprendizagem.

Dialogar com comunidades linguísticas identificadas com diagnósticos fechados e Verdade cientificamente incontestável, sustentadas pelos códigos internacionais é desafiador. As dificuldades não decorrem das diferenças entre verdades, mas pela crença de que as verdades determinadas por algumas comunidades linguísticas são: melhores, mais exatas e por isso mesmo credenciadas para identificar a origem dos Transtornos de Aprendizagem.

Vale lembrar aqui a contribuição proposta por Sara Pain5, que inaugurou um modelo de análise para compreensão do aprender. O organismo sempre está presente no conjunto das quatro estruturas envolvidas na aprendizagem: organismo; corpo; estrutura simbólica e inteligência. Não seria míope a visão unicamente focada na organicista na análise dos ditos Transtornos de Aprendizagem? O sujeito da aprendizagem é apenas o resultado de seu organismo? Onde está a singularidade? Onde está o sujeito?

Minha próxima questão relaciona-se com a prática: Por que alguns psicopedagogos, inspirados pelas descrições dos códigos internacionais de doenças, conduzem a intervenção focando primordialmente nos aspectos funcionais, como foi na Reeducação Psicopedagógica? Ora, se para aprender são necessárias as quatro estruturas, é quase impossível pensar em mudanças funcionais desconsiderando as relacionais. Há lugar para o “encontro terapêutico”?

Quando me refiro ao “encontro terapêutico”, faço polifonia com um texto que chamo hoje de “fundador da psicopedagogia dinâmica” que li na década de 80, quando iniciava meu trabalho clínico ainda voltado para a reeducação psicopedagógica. Minha preocupação naquela época, quando iniciei meu trabalho, era “o domínio de métodos e técnicas que melhor contribuíssem para as mudanças específicas”. O texto em questão era a transcrição de uma conferência do Colóquio: “A Dislexia em questão”, realizado em 1970, em Paris, da autoria de Chassagny, da equipe médico-psicopedagógica. Ele, que inovou ao cunhar a expressão “Pedagogia Relacional da Linguagem”, afirmava:

“Não temos a intenção de transformar a reeducação em psicoterapia analítica. Mas não vejo problema no fato de que nossa reeducação seja uma psicoterapia. No centro de uma relação, de um encontro com uma criança ao redor do objeto linguagem, encontramos a linguagem, a técnica do reeducador e também a relação terapêutica, porque, salvo que se esteja diante de um muro ou de um gravador, toda relação dual de pessoa a pessoa implica numa relação afetiva”.

A preocupação com a priorização de mudanças funcionais não seria uma retomada histórica da Reeducação, quando o profissional que se dedicava à reabilitação o fazia sob orientação do médico?

É imprescindível considerar a presença da organicidade na aprendizagem, porém como parte do todo e não isoladamente. Alguns profissionais de comunidades linguísticas identificados com a valorização de aspectos orgânicos e com as descrições dos códigos internacionais de doenças validam, qualificam e valorizam práticas fundadas unicamente em pesquisas científicas, especificamente na quantitativa. Na prática o discurso se manifesta através de ações como: diagnósticos fechados; ações cientificamente comprovadas e resultados previsíveis.

Identificada com abordagem dinâmica na Psicopedagogia e do construcionismo social, entendo que o termo “diagnóstico psicopedagógico” expressa a visão essencialista, fechada. Há profissionais da área da Psicopedagogia que se preocupam em “fechar diagnósticos”. Considero a terminologia Avaliação Psicopedagógica mais adequada, ela é importante enquanto etapa que expressa e orienta a direção da intervenção. Os resultados apontados na avalição são provisórios e específicos, são como uma “foto datada”. Será a partir da continuidade da intervenção que serão melhor compreendidos os estilos de aprendizagem e as questões com a aprendizagem.

O fracasso escolar e o desajuste para lidar com o “aprender a viver” inevitavelmente causam sofrimento e desgaste para o sistema de vida humano como um todo, pois atingem: família, escola, aprendente, sociedade.

Alguns setores descrevem e qualificam como soluções “mágicas” as intervenções medicamentosas nas questões relacionadas à atenção e inquietação corporal. Volto a sublinhar que seria insensatez desconsiderar o organismo e os benefícios das substâncias que, em algumas situações, podem contribuir para o funcionamento mais harmônico do ser humano. Porém, é fundamental critérios para a escolha das intervenções que se balizam por solução “certeira e mágica”. Onde estão as equipes multidisciplinares disponíveis ao diálogo aberto entre as diferentes disciplinas com profissionais que por elas transitam? Como construir comunidades linguísticas abertas que admitam diferentes caminhos para a dissolução dos problemas de aprendizagem e suas diferentes causas?

A dificuldade/impossibilidade para dialogar com comunidades linguísticas muito diferentes me remete ao poder do discurso social. Na Idade Média, o discurso era: o destino depende do divino. O Iluminismo inaugura outra explicação para o desafio existencial: o Homem através da inteligência e do conhecimento científico tem poder para controlar sua vida. O pensamento moderno, cartesiano introduz as bases para a supervalorização do científico.

Este ainda está presente no discurso idealista da Educação que tem como objetivo desenvolver as competências do bom professor e as competências do bom aluno. Estes discursos valorizam a técnica e a metodologia como dispositivos fundamentais para atingir os objetivos. Mas, apesar da ênfase na capacidade de planejamento, nem sempre conseguem mobilizar seus alunos. Por outro lado, há docentes que surpreendem e se destacam pelos resultados alcançados com “alunos-problema”7, pois se balizam por práticas diferenciadas das tradicionais. Na minha leitura, eles pertencem a uma “comunidade linguística” identificada com a visão da Psicopedagogia dinâmica:

“Tendem a lutar contra o fracasso escolar de seus alunos, a praticar metodologias mais ativas e criativas e a respeitar seus alunos enquanto sujeitos particulares, detentores de uma singularidade a ser explorada em sala de aula, por trazerem necessidades muitas vezes contrárias àquelas definidas previamente pelos planos de curso e conteúdos programáticos”7.

A educação é uma profissão impossível como afirma Freud, porém o impossível “não é sinônimo de irrealizável, mas indica que algo não pode ser integralmente alcançado8. Isto me faz relacionar a transmissão advinda da educação como algo incontrolável, marcado pela ignorância, isto é, não se sabe como cada uma no encontro pedagógico significa o conteúdo transmitido a partir de suas próprias afetações. O aluno que responde ao apelo de seu mestre, o faz por consideração ao mesmo, isto é, por amor ao outro.

A aquisição do conhecimento depende estreitamente da relação do aluno com o professor, ou com o psicopedagogo. Qual é o resultado de uma intervenção psicopedagógica que valoriza primordialmente habilidade e funções desconsiderando “necessidades muitas vezes contrárias àquelas definidas previamente pelos planos de curso e conteúdos programáticos” ou pelos caminhos traçados a partir de diagnósticos fechados?

Saindo da posição positivista e idealista da Educação e da Psicopedagogia, Pereira no artigo: “O relacional e seu avesso na ação do bom professor”7 apresenta reflexões de autores (Shön, Cifali, Perrenaud), que construíram alternativas para analisar a ação pedagógica a partir de situações problemáticas nas quais se apresentam conflitos, instabilidades, incertezas. Estas são entendidas como constitutivas, isto é, pertinentes. Isto não significa aceitação tácita das mesmas. Demanda reflexão como prática, afirma Perrenaud: “ A reflexão sobre a própria prática é em si mesma um motor essencial de inovação”. Mas, avalia Pereira: quando Perrenaud, em seus estudos avalia o bom professor como aquele que em situações adversas: analisa o que sentiu e fez, pensou, o faz não para julgar, mas para analisar a sua própria prática identificando aspectos relacionais que poderiam ser melhor conduzidos7.

Estamos familiarizados com o conceito de clínico no sentido de debruçar-se, inclinar-se diante do paciente. Cifali, 1991, apud Pereira7, oferece outra conotação para o conceito de clínico para a prática educacional, o qual visa trazer uma parte dos conhecimentos teóricos como respostas às situações vividas, o que obriga o professor a refletir sobre sua ação, compreender os fenômenos e a rever sua prática. Mas, é Perrenaud quem, ao reler Cifali, propõe:

“O clínico é o que perante uma situação complexa, possui as regras e dispõe de meios teóricos e práticos para: a) avaliar a situação; b) pensar numa intervenção eficaz; c) pô-la em prática; d) avaliar sua eficácia aparente; e) corrigir a pontaria. Ensinar não consiste em aplicar cegamente uma teoria nem conformar-se com um modelo. É, antes de mais nada, resolver problemas, tomar decisões, agir em situações de incerteza e, muitas vezes, de emergência. Sem para tanto afundar no pragmatismo absoluto e em ações pontuais”

Termino minha reflexão a respeito do científico e do cientificismo com a contribuição de Perrenaud, que coloca o educador/psicopedagogo/terapeuta na posição de intelectual que sensivelmente e subjetivamente pode lidar com imprevistos, desequilíbrios, incertezas, como dispositivos pertinentes e presentes no ato pedagógico e no encontro psicopedagógico.

Esta ação não se distancia do pensamento científico na medida em que a teoria e prática estão presentes, bem como a avaliação a posteriori que permite reformulação criteriosa. O que muda neste modelo? É a inclusão da relação entre os atores. Não é um protocolo enquanto script pré-determinado que conduz a cena na qual os atores e autores contracenam.

 

REFERÊNCIAS

1. Moscheta MS. Performance e identidade: apontamentos para uma apreciação estéticorelacional do desenvolvimento. Nova Perspect Sist. 2012;21(44):9-20.

2. Melucci A. O jogo do Eu: a mudança de si em uma sociedade global. São Leopoldo: Unisinos; 2004. 184 p.

3. Bittencourt de Araujo BN, Morgado N. A escuta terapêutica na interlocução clínica: uma contribuição ao construcionismo social pelo viés do pragmatismo linguístico. Nova Perspect Sist. 2006;26:24-34.

4. Rubinstein E, Castanho MI, Noffs NA. Rumos da Psicopedagogia Brasileira. Rev Psicopedagogia. 2004;21(66):225-38.

5. Pain S. Processo da Transmissão da Aprendizagem e o Papel da Escola na Transmissão dos Conhecimentos. São Paulo: CEVEC; 1985.

6. Rubinstein E. O estilo de aprendizagem e a queixa escolar: entre o saber e o conhecer. São Paulo: Casa do Psicólogo; 2003.

7. Pereira MR. O relacional e seu avesso na ação do bom professor. In: Lopes EMT, org. A psicanálise escuta a educação. Belo Horizonte: Autêntica; 1998.

8. Kupfer MC. Freud e a Educação: o mestre do impossível. São Paulo: Scipione; 1992.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mestre em Psicologia da Educação pela Universidade São Marcos; Pedagoga; Psicopedagoga, Formadora de Programa de Enriquecimento Instrumental pelo ICELP de Jerusalém, Terapeuta Familiar pelo Instituto Familiae - SP; Coordenadora e docente do Centro de Estudos Seminários de Psicopedagogia. Ex-presidente da ABPp nacional e membro do conselho vitalício, São Paulo, SP, Brasil

 

Correspondência

Edith Rubinstein
Rua Rio Azul, 309
São Paulo, SP, Brasil – CEP: 05519-120
E-mail: edithrubinstein@hotmail.com

Artigo recebido: 11/09/2017
Aceito: 21/09/2017


Trabalho realizado no Centro de Estudos Seminários de Psicopedagogia, São Paulo, SP, Brasil.