Artigo Original - Ano 2017 - Volume 34 - Edição 104

Habilidades cognitivas de escolares do ensino público e privado: estudo comparativo de pré-competências para a aprendizagem acadêmica

RESUMO

O estudo sobre o diferencial de desempenho cognitivo de alunos de escolas públicas e privadas possibilita contribuir para a elaboração de políticas que promovam a melhoria da qualidade da educação. Ao longo dos últimos anos, a qualidade do desempenho vem decaindo, sendo atribuído tanto à instituição de ensino quanto à ineficiência do próprio estudante. As diferenças socioeconômicas e dos recursos cognitivos entre os alunos são ainda parcialmente aceitas e constituem um forte impacto no conservadorismo dos sistemas educacionais. O objetivo deste estudo foi comparar as pré-competências cognitivas para a alfabetização de escolares do ensino público e privado, com e sem fissura labiopalatina. A amostra foi composta por 66 alunos, de 4 a 7 anos de idade, ambos os sexos, matriculados no ensino infantil ou no 1º ano do fundamental, organizados em três grupos: G1, por crianças com fissura transforame, sendo 15 de escolas públicas e 5 de particulares; G2, por crianças com fissura pós-forame, sendo 14 de escolas públicas e 6 de particulares; e G3, por crianças sem anomalias craniofaciais ou outras alterações de desenvolvimento, sendo 13 de escola pública e 13 de privada. Os instrumentos utilizados foram o Teste de Habilidades e Conhecimento Pré-Alfabetização, a Escala de Maturidade Mental Columbia, Figuras Complexas de Rey e o Protocolo Demográfico Socioeconômico. Os resultados indicaram que os alunos das escolas públicas, independentemente do grupo, tiveram desempenhos mais rebaixados nas pré-competências cognitivas, e que as condições socioeconômicas desfavoráveis, associadas às limitadas oportunidades socioculturais, foram fatores indicativos de risco para o baixo desempenho evidenciado.

Palavras-chave: Fissura Palatina. Inteligência. Cognição. Aprendizagem. Neuropsicologia.

ABSTRACT

Studies on the differential of cognitive performance of students from public and private schools contributes to policies elaboration that promote the improvement of the education quality. Over the last few years, it has been reported the declining of institution and the student's own inefficiency performance. Socioeconomic and cognitive resources differences among students are partially accepted and have a strong impact on the conservatism of educational systems. The objective of this study was to compare cognitive pre-skills for literacy of public and private school's children, with and without cleft lip and palate. The sample consisted of 66 students, from 4 to 7 years old, both sexes, enrolled in kindergarten or elementary school, organized in three groups: G1, by children with transforamen cleft, 15 from public schools and 5 from private schools; G2, by children with postforamen fissure, 14 from public schools and 6 from private schools; And G3, by children without craniofacial anomalies or other developmental alterations, 13 from public school and 13 from private school. The protocols used were the Pre-Literacy Knowledge and Skills Test, the Columbia Mental Maturity Scale, Rey Complex Figures and the Socioeconomic Demographic Protocol. The results indicated that the students from the public schools, independent of the group, had lower performances in the cognitive preskills, and that the unfavorable socioeconomic conditions, associated to the limited sociocultural opportunities were indicative as risk factors for the low performance evidenced.

Keywords: Cleft Palate. Intelligence. Cognition. Learning. Neuropsychology.


INTRODUÇÃO

A literatura é escassa em estudos focados em pré-competências para alfabetização em crianças com fissura labiopalatina envolvendo as variáveis intelectuais, cognitivas, neuropsicológicas e correlacionadas ao tipo de ensino e ao nível socioeconômico. Também é quase inexistente quando comparados os perfis nos diferentes tipos de fissura.

As fissuras labiopalatinas (FLP) acometem, no Brasil, cerca de 1 a cada 650 nascidos vivos1. São decorrentes de causas multifatoriais que ocasionam falhas no desenvolvimento ou na maturação dos processos embrionários, que acontecem na quarta à oitava semana de vida intrauterina, originando a malformação facial congênita.

No período embrionário em que as fissuras têm a sua origem, o Sistema Nervoso Central (SNC) está se organizando em termos das flexuras encefálicas (4ª à 8ª semana gestacional) e mielinização das fibras nervosas (a partir da 5ª semana de gestação), estruturas essas fundamentais para a funcionalidade do córtex cerebral2.

As funções cognitivas são distribuídas no córtex cerebral anatomicamente em quatro lobos: o frontal, o qual envolve o planejamento e o movimento voluntário; o parietal, circundando as sensações da superfície corporal e a percepção espacial; o occipital, envolvido com a visão; e o temporal, o qual abrange a audição, a percepção visual e a memória3. Essas áreas do córtex cerebral devem ser interdependentes e inter-relacionadas, funcionando com uma orquestra, a qual necessita da integração de seus componentes para a realização de um concerto4.

Na faixa etária dos 4 aos 7 anos de idade, a qual é apontada como foco neste estudo, o desenvolvimento da criança está voltado para a construção e aprimoramento da cognição e da personalidade. O desenvolvimento de habilidades cognitivas é decorrente da integração do ato motor ao ato mental, o aprendizado opera-se por meio das experiências psicomotoras e comunicativas, que possibilitam emergir recursos para a aprendizagem de atividades mentais refinadas5.

Por isso, conforme Moniz6, a educação pré-escolar não deve ser compreendida apenas como uma preparação para a escolaridade obrigatória, mas sim, como uma etapa essencial ao longo da vida da criança, porque esta deve adquirir competências necessárias para poder atingir as próximas etapas do seu processo escolar.

As competências a serem desenvolvidas devem estar relacionadas às habilidades de memorizar, comparar, associar, classificar, interpretar, hipotetizar, julgar, enfim, compreender os fenômenos7. Tais competências podem ser observadas sob o prisma da neuropsicologia, cuja avaliação possibilita identificar funções cognitivas e compreender a relação do cérebro e comportamento, associada às alterações do SNC que acometem o desenvolvimento e o aprendizado8.

O bom desenvolvimento das habilidades para a alfabetização depende das condições extrínsecas, como exposição da criança a atividades que explorem manipulações, sons, entre outros, e das condições intrínsecas, as quais são da própria criança9. Os fatores extrínsecos ou ambientais podem ser compreendidos como sendo as desvantagens sociais, econômicas, culturais e pedagógicas, e os fatores intrínsecos podem ser entendidos como disfunções cognitivas ou neurológicas, ou seja, referem-se aos transtornos de aprendizagem10. Portanto, os fatores intrínsecos representam disfunção do SNC, estando relacionados ao processo de aquisição ou do desenvolvimento, de caráter funcional11.

As condições socioeconômicas precárias influenciam a menor exposição das crianças a fatores promotores do desenvolvimento, que favorecem o sucesso acadêmico, como envolvimento e suporte dos pais, passeios, atividades compartilhadas no lar e oferta de brinquedos, espaço e rotina orientada para o estudo, entre outros, havendo, portanto, falta de estimulação12,13.

Mesmo tentando controlar a influência do nível socioeconômico dos alunos, o qual pode ser considerado como fator preponderante para o desempenho escolar, os percentuais da variabilidade do desempenho nas escolas são elevadíssimos, principalmente quando se consideram conjuntamente as redes privada e pública14.

A estrutura do estabelecimento de ensino, a qualidade dos professores, a disponibilidade de laboratórios de qualidade, a organização e o nível dos demais alunos têm influência no desempenho dos alunos, havendo grande variação nesses indicadores quando se compara o ensino público e privado15. Avaliações realizadas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) revelaram que aproximadamente 5% dos alunos de escolas públicas apresentaram desempenho classificado como "adequado", mas que essa classificação vem decaindo.

A identificação das pré-competências para a alfabetização de crianças em fase pré-escola e no início do ensino fundamental pode representar um viés importante no reconhecimento precoce de dificuldades que podem ser impactantes no contexto acadêmico e, ainda, na formação de seu autoconceito e autoestima5.

Assim, o quanto antes ocorrer o reconhecimento das dificuldades, mais cedo haverá o planejamento e processo de remediação, favorecendo o desempenho escolar das crianças, seu autoconceito e sua autoestima.

Objetivo

Comparar as pré-competências para a alfabetização de crianças com e sem fissura labiopalatina matriculadas em escolas da rede pública e privada.

 

MÉTODO

Participaram do estudo 66 alunos, de 4 a 7 anos de idade, de ambos os sexos, na fase da pré-escola ou no 1º ano do ensino fundamental, compondo três grupos: G1 - formado por crianças com fissura labiopalatina isolada, do tipo transforame, matriculadas no Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC/ USP), sendo 15 crianças frequentadoras de escolas públicas e 5 de escolas particulares; G2 - composto por crianças com fissura labiopalatina isolada, do tipo pós-forame, matriculadas no Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC/USP), sendo 14 estudantes de escolas públicas e 6 de escolas particulares; e, G3 - grupo comparativo, constituído por crianças sem anomalias craniofaciais ou outras alterações de desenvolvimento, sendo 13 matriculadas em uma escola pública do interior paulista e 13 em uma escola particular da mesma cidade. Os critérios de inclusão/exclusão foram adotados, visando o refinamento da amostra.

Para o alcance dos objetivos propostos, foram utilizados:

– Escala de Maturidade Mental Columbia (CMMS)16, que tem como finalidade investigar o nível intelectual e as capacidades que são importantes para o sucesso na escola, principalmente aquelas para discernir as relações entre os vários tipos de símbolos.

Teste de Habilidades e Conhecimento Pré-Alfabetização (THCP)17 , o qual permite avaliar as habilidades e o nível de conhecimento de crianças na pré-alfabetização, envolvendo Habilidades Percepto-motoras, Linguagem, Pensamento Quantitativo, Memória e Atenção Concentrada.

Figuras Complexas de Rey18, para avaliar a atividade receptiva e a memória visual, nas fases de cópia e reprodução de memória, verificando o modo como o sujeito apreende os dados perceptivos que lhe são apresentados e o que foi conservado espontaneamente pela memória. Devido à faixa etária dos grupos de estudo, foi utilizada somente a Forma B, conforme prevê a normativa do instrumento.

Protocolo Demográfico Socioeconômico (Adaptado de Graciano & Lehfeld19), tendo como finalidade, por meio de sua aplicação, conhecer a composição familiar dos participantes, assim como, o tipo de família, nível educacional e ocupacional dos familiares, aspectos habitacionais e, principalmente, renda bruta mensal da família.

Para realizar a estratificação social dos participantes, foi utilizada uma Tabela de Grupos de Renda da População, da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), conforme "Estratificação Socioeconômica e Consumo no Brasil"20.

O presente estudo foi decorrente do projeto de pesquisa aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos (Parecer nº 1.461.699), e os procedimentos éticos foram adotados, atendendo à resolução nº 466/2012 da CONEP.

Para compor os G1 e G2, foi realizada a consulta ao Centro de Processamento de Dados da instituição participante para obtenção de informações referentes à listagem e seleção de dados de identificação dos candidatos. Os prontuários foram analisados para obtenção de dados secundários e compatibilizar aos critérios de elegibilidade no estudo.

Na coleta de dados com os G1 e G2, os encontros foram agendados previamente em horários alternativos aos tratamentos clínicos do protocolo hospitalar, ocorridos no mesmo dia ou em outras oportunidades de retorno nos atendimentos de rotina. A avaliação ocorreu em sala apropriada para o procedimento previsto, de acordo com as normativas de cada instrumento, com tempo médio de 40 minutos.

Para compor o G3, foram adotados os procedimentos formais de participação da escola e posterior triagem dos alunos, autorizados pelos responsáveis à pesquisa. A coleta de dados ocorreu nas escolas, durante o período de aula, em momento indicado pelo professor, com mínima interferência na dinâmica das aulas.

Os dados obtidos foram descritos, classificados e interpretados de acordo com a normativa de cada instrumento, e organizados em tabelas. Foram submetidos ao estudo estatístico, para comparar as médias dos desempenhos obtidos nos diferentes instrumentos de pesquisa. Para se verificar a associação entre as variáveis qualitativas referentes ao desempenho por tipo de fissura e escolas nas subescalas de cada instrumento da Psicologia utilizados no estudo, foi aplicado o Teste Qui-Quadrado. O nível de significância adotado em todos os testes foi de 5%, considerando que, quando o valor de significância calculada (p) foi menor, existiu uma diferença estatisticamente significante21.

 

RESULTADOS

Comparação dos resultados do G1 e G2 nas escolas pública e particular

Ao comparar os resultados intelectuais (Escala de Maturidade Mental Columbia – CMMS) dos participantes de escolas públicas e particulares, do G1 e G2, verificou-se que 20,7% dos alunos da escola pública e 27,3% da particular obtiveram classificação abaixo do esperado, indicando fator de risco para prejuízo intelectual. No entanto, 79,3% das crianças da escola pública e 72,7% da escola particular tiveram classificações do raciocínio dentro ou acima do esperado. Nesta comparação, embora descritivamente tenham sido observadas diferenças nos perfis dos alunos, estatisticamente não se confirmou diferença significante (p=0,359) entre as populações (Tabela 1).

 

 

Ao observar os resultados das Figuras Complexas de Rey - Forma B do G1 e G2, no quesito cópia, 37,9% dos alunos da escola pública e 54,5% da escola particular obtiveram classificação abaixo do esperado para sua idade. Não houve diferença estatisticamente significante (p=0,423). No quesito memória, 55,2% dos alunos da escola pública e 36,4% da escola particular obtiveram classificação abaixo da média. Também não existiu diferença estatisticamente significante (p=0,287). Os dados quantitativos obtidos estão descritos na Tabela 2.

 

 

Quando comparados os resultados globais do Teste de Habilidades e Conhecimento Pré-Alfabetização (THCP) referentes às crianças das escolas pública e particular do G1 e G2, verificou-se que não houve diferença estatisticamente significante entre as escolas (p=0,226). 13,8% dos alunos da escola pública e 18,2% da escola particular obtiveram classificação abaixo da média (Tabela 3).

 

 

Com relação à comparação dos subtestes do Teste de Habilidades e Conhecimento Pré-Alfabetização (THCP) aplicados no G1 e G2, 24,1% das crianças de escola pública e 18,2% de escola particular tiveram classificação abaixo da média quando avaliados os fatores relacionados às Habilidades Percepto-motoras. No subteste da Linguagem, 55,2% dos alunos da escola pública e 36,4% da escola particular obtiveram classificação abaixo do esperado. Com relação à Memória, 24,1% dos alunos da escola pública obtiveram classificação abaixo do esperado, não tendo registro com esta classificação para alunos de escola particular. E no fator Atenção Concentrada, 31% das crianças escola pública e 36,4% da escola particular tiveram classificação abaixo da média.

Nas habilidades descritas avaliadas, não existiu diferença estatisticamente significante quando analisadas sob o prisma estatístico (Tabela 4).

 

 

Na habilidade referente ao Pensamento Quantitativo, 58,7% das crianças da escola pública e 27,3% da escola particular tiveram classificação abaixo da média para sua idade. Nesta comparação dos G1 e G2, quando analisadas estatisticamente, houve diferença significante (p=0,002).

Dessa forma, a partir da avaliação desta pré-competência verificou-se que a maioria dos participantes do G1 e G2 que estavam matriculados em escolas particulares demonstrou ter adquirido a capacidade de reconhecimento numérico, contagem e compreensão de que a ordem em que os elementos são contados não faz diferença (Figura 1).

 

 

Comparação dos resultados do G3 nas escolas pública e particular

No instrumento Escala de Maturidade Mental Columbia (CMMS), ao comparar os resultados do G3 nas escolas pública e particular, observou-se que 30,8% dos alunos da escola pública e 7,7% da escola particular obtiveram classificação abaixo do esperado para sua idade, indicando fator de risco para prejuízo intelectual. No entanto, 69,2% das crianças da escola pública e 92,3% da escola particular tiveram classificações do raciocínio dentro ou acima do esperado (Tabela 5).

 

 

Ao analisar os resultados do G3 no instrumento Figuras Complexas de Rey - Forma B, na modalidade cópia, 53,8% das crianças da escola pública e 30,8% da escola particular tiveram classificação abaixo da média para sua idade. No quesito memória, a diferença foi significativa: 69,2% dos alunos da escola pública e 7,7% da escola particular obtiveram classificação abaixo da média (Tabela 6).

 

 

Quando comparados os resultados globais do Teste de Habilidades e Conhecimento Pré-Alfabetização (THCP) referentes às crianças das escolas pública e particular do G3, verificou-se que os alunos da escola particular tiveram melhor desempenho, pois 23,1% deles obtiveram classificação acima da média, enquanto, na escola pública, 15,4% dos alunos tiveram esse mesmo desempenho (Tabela 7).

 

 

Com relação à comparação dos subtestes do Teste de Habilidades e Conhecimento Pré-Alfabetização (THCP) aplicados no G3, quando avaliados fatores relacionados às Habilidades Percepto-motoras, 30,8% das crianças da escola pública e 7,7% da escola particular obtiveram classificação abaixo da média.

No subteste da Linguagem, 30,8% dos alunos da escola pública e 23,1% da escola particular tiveram classificação abaixo da média para sua idade. Em Pensamento Quantitativo, ocorreu o contrário, 23,1% das crianças da escola pública e 30,8% da escola particular obtiveram classificação abaixo da média.

Com relação à Memória, 15,4% dos alunos da escola pública e 7,7% da escola particular tiveram classificação abaixo da média.

E no fator Atenção Concentrada, 7,7% das crianças, tanto da escola pública quanto da escola particular, obtiveram classificação abaixo da média.

Os dados quantitativos, referentes às habilidades percepto-motoras, à linguagem, ao pensamento quantitativo, à memória e à atenção concentrada, conforme o Teste de Habilidades e Conhecimento Pré-Alfabetização (THCP), são demonstrados na Tabela 8.

 

 

DISCUSSÃO

Quando comparado o tipo de escola com as pré-competências avaliadas, observou-se que, no G1 e G2, os alunos das escolas particulares demonstraram nível intelectual mais rebaixado e maiores dificuldades no desempenho das funções Percepto-visomotoras e Atenção Concentrada, quando comparados às crianças matriculadas em escolas públicas.

No entanto, os alunos das escolas públicas apresentaram maiores dificuldades relacionadas à Memória visual e auditiva, Habilidades Percepto-motoras, Linguagem e Pensamento Quantitativo, quando comparados aos alunos das escolas particulares, demonstrando que há diferença pouco significativa, apesar dos alunos da escola pública terem apresentado mais habilidades cognitivas com desempenhos rebaixados.

Nos últimos anos, constata-se que o desempenho dos alunos de escolas particulares não tem mantido um padrão superior, nivelando-se em qualidade do ensino e aprendizagem. Este enfoque sugere que a razão esteja relacionada à mesma Política Educacional estabelecida para ambos os tipos de escola, e ao fato de não ser incomum que os mesmos professores desenvolvam suas atividades profissionais em horários alternados, em escolas públicas e particulares22.

A partir da análise dos resultados da estratificação socioeconômica dos participantes, pode-se observar que, de todos os grupos, o G1 foi o que possuiu maior contingente na baixa classe média e na frequência em escolas da rede pública, sendo também o grupo que mais evidenciou desempenhos rebaixados na maioria das avaliações. Esses achados corroboraram os estudos que identificaram que o nível socioeconômico pode ser um fator influente na aquisição das pré-competências cognitivas e no desempenho acadêmico de alunos com fissura labiopalatina7,13.

O ambiente acadêmico pode exercer grande influência na formação e desempenho do aluno, desde a estrutura física da instituição escolar, da qualidade de formação dos professores e do nível socioeconômico dos pares matriculados, uma vez que os modelos de referência e os fatores motivacionais são fundamentais para o aprendizado. Crianças com menor índice de exposição a fatores promotores do desenvolvimento para o sucesso acadêmico tendem a problemas de comportamento e menor desempenho na aprendizagem, desde a alfabetização inicial12,15.

A falta de atenção dos professores pode ser outro fator que contribui para o baixo desempenho dos alunos, podendo vir a influenciar a criança a não gostar da escola, havendo, portanto, a ocorrência de problemas de comportamento e possíveis consequências no baixo desempenho acadêmico23. Desta forma, a boa interação professor-aluno contribui para o enfrentamento de problemas de comportamento e de desempenho acadêmico.

Entretanto, diante das políticas públicas nacionais, com limitados investimentos na estrutura básica, reconhecimento salarial e formação continuada do professor, sua motivação pode mostrar-se continuamente fragilizada, interferindo na operacionalização da sua tarefa de ensinar e, consequentemente, favorecendo o baixo desempenho dos alunos.

O baixo desempenho de alunos com fissura labiopalatina pode estar relacionado à baixa expectativa, tanto por parte dos pais/responsáveis quanto dos professores, aliada ao nível elevado de tolerância, e, com isso, não haver o direcionamento da atenção necessária, podendo gerar ou mesmo contribuir para que o desempenho da criança seja inferior ao seu potencial real24. No grupo comparativo (G3), ao relacionar o tipo de escola com os desempenhos obtidos pelos mesmos, pôde-se observar que os alunos da escola pública obtiveram desempenhos mais rebaixados na maioria das pré-competências avaliadas, quando comparados com os escolares do ensino privado, com exceção da pré-competência Pensamento Quantitativo. É, portanto, possível confirmar que as pré-competências cognitivas para a alfabetização têm interferência de aspectos ambientais/socioeconômicos10,12-14,25.

Os alunos que compuseram este grupo, por não possuírem histórico de alterações no desenvolvimento e frequentarem escola da rede particular tida como de boa referência, deveriam ter apresentado excelência nas pré-competências cognitivas avaliadas, porém, isto não foi constatado. Acrescido a isso, um percentual representativo foi classificado em categorias socioeconômicas menos favorecidas, o que pode ter interferido nas oportunidades para melhoria das habilidades cognitivas.

Os achados do presente estudo remetem ao olhar observador dos efeitos deletérios da antecipação escolar brasileira aos 6 anos, e que evidenciam as pressões por antecipar ambientes estruturados de aprendizagem, voltados para habilidades escolares típicas da primeira série, capaz de produzir efeitos nefastos na formação da criança.

A dependência excessiva de instrução direta e repetitiva, aliada a uma pedagogia pobremente estruturada, em que a criança é submetida às mesmas tarefas insípidas, possibilitam a perda do seu entusiasmo pela aprendizagem estruturada. Esta concepção induz ao entendimento sobre o aproveitamento das famosas "janelas de desenvolvimento", baseadas distorcidamente em teorias do desenvolvimento infantil e que instituem na criança as supostas metodologias inovadoras em detrimento da redução de oportunidades lúdicas para o aluno iniciante ser criança.

 

CONCLUSÃO

Ao relacionar o tipo de escola pública ou particular observou-se que na maioria das pré-competências, tanto os alunos do G1 (fissura transforame) e G2 (fissura pós-forame) quanto do G3 (comparativo) que frequentavam escolas particulares tiveram melhores desempenhos. O grupo transforame (G1) foi o que possuiu maior contingente na baixa classe média e na frequência em escolas da rede pública, também sendo este grupo o que mais evidenciou desempenho rebaixado na maioria das avaliações realizadas.

O estudo possibilitou concluir que as crianças das escolas particulares com melhores aquisições de pré-competências para a aprendizagem acadêmica, nas variáveis intelectuais, cognitivas e neuropsicológicas, advêm de ambientes cujas diretrizes pedagógicas sinalizam para uma melhor qualidade de ensino, embora ainda apresentem carências.

Os resultados indicaram que os alunos das escolas públicas, independentemente do grupo, tiveram desempenhos mais rebaixados nas pré-competências cognitivas, e que as condições socioeconômicas desfavoráveis, associadas às limitadas oportunidades socioculturais, foram fatores indicativos de risco para o baixo desempenho evidenciado.

 

AGRADECIMENTOS

Agrademos ao Ms. Vinicius Cavicchioli Azevedo por sua colaboração na realização da tradução do resumo deste trabalho para a língua inglesa.

 

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1. Mestranda em Ciências da Reabilitação no Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (HRAC-USP)
2. Neuropsicóloga – Pós-Doutora em Ciências Médicas. Livre Docente do Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FOB-USP) e da Pós-graduação do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC-USP)

 

Correspondência

Maria de Lourdes Merighi Tabaquim
Rua Bandeirantes, 9-60 Apto 61
Bauru SP, Brasil – CEP 17015-012
E-mail: malu.tabaquim@usp.br

Artigo recebido: 23/05/2017
Aceito: 15/06/2017


Trabalho realizado na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM/ Unicamp), Campinas, SP, Brasil.