Editorial - Ano 2016 - Volume 33 - Edição 102

Transformação


O grande número de artigos que nos foram enviados para avaliação neste último semestre reflete a confiança que a Revista Psicopedagogia conquistou ao longo dos anos, junto aos autores e pesquisadores, do Brasil e de Portugal. Isto é fruto, sem dúvida, de um esforço coletivo de todos os que estiveram à frente desta responsabilidade e do Conselho Editorial, já que nenhuma obra se consolida sem esforço, empenho e perseverança de um grupo, em torno de um desígnio.

E nosso objetivo sempre foi e é levar a público, quadrimestralmente, conhecimento atualizado na forma de uma revista multidisciplinar, que prima pela qualidade científica. Qualidade essa, que como todos sabemos, é permanentemente avaliada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e que depende de muitos fatores, incluindo pontualidade na publicação, porcentagem de artigos de pesquisa científica de autores externos à instituição, presença crescente em indexadores, entre outros.

Quero tornar público que, com esta publicação, a edição 102, concluo meu período de responsabilidade à frente da Editoria da Revista Psicopedagogia da Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp), com a certeza de ter respondido à demanda que me foi delegada pelo Conselho Nacional, no final de 2002. Em abril de 2003, já estava publicado e disponível, aos associados e público em geral, o número 61 da Psicopedagogia, que atualmente pode ser acessado virtualmente, no site da revista: http://www.revistapsicopedagogia.com.br/sumario/51

Foi um caminhar cheio de expectativas e desafios: em 2005, edição 69, a revista recebeu pela primeira vez qualificação B Nacional pela CAPES, ligada ao Ministério da Educação, e obteve sua indexação pela LILACS – Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde. Na edição 72, no ano 2006, comemorativa dos 25 anos da ABPp, já havia sido indexada a oito importantes Bases de Dados Nacionais e Internacionais e se fortalecido como fonte de consulta respeitada no meio acadêmico.

Hoje, olhando para o futuro, tenho a certeza de que uma nova equipe não apenas manterá o compromisso que selamos com a divulgação dentro dos mais elevados padrões científicos, mas superará a qualidade alcançada que nos outorgou na última avaliação da CAPES a honrosa qualificação de B1, B2 e B3, respectivamente, nas áreas de Psicologia, Interdisciplinar e Educação.

Neste último fascículo de minha gestão como editora da Psicopedagogia, tenho a honra de trazer aos leitores uma série de interessantes artigos, que passo a apresentar.

"Relação entre autoconceito e autocontrole comparados ao desempenho escolar de crianças do ensino fundamental", de Gabriella Conte, Sylvia Maria Ciasca e Iuri Victor Capelatto, que tem como objetivo identificar a relação entre autoconceito e autocontrole comparados ao desempenho escolar e é o primeiro instigante artigo de pesquisa que abre este número.

"Caracterização do bullying em estudantes que gaguejam", enviado por Leila Nagib, Renata Mousinho e Gil Fernando da Costa Mendes de Salles, é uma investigação que objetiva descrever o bullying em pacientes/estudantes com idades de 10 a 17 anos, com gagueira, suas variáveis sociodemográficas, relações familiares, caracterização e sentimentos da violência na escola e características por local, praticantes e alvo.

O artigo original intitulado "Investigação da atenção de adolescentes que apresentam mau desempenho escolar", de Maria de Fátima Guadagnini e Adriana Nobre de Paula Simão, comparou o desempenho atencional de adolescentes com idades entre 14 e 16 anos, com e sem dificuldades escolares, em instrumentos neuropsicológicos que avaliam a atenção. Os resultados sugerem que a função atencional apresenta prejuízos no grupo de alunos apontados com mau desempenho escolar, corroborando os estudos que afirmam que a atenção é base para o sucesso da aprendizagem.

"Identificação das competências necessárias para a aprendizagem de leitura e escrita de crianças com fissura labiopalatinas: estudo comparativo" aborda um tema pouco presente em nossa revista. O referido artigo foi endereçado a nós por Shaday Prudenciatti, Rafael Silva Pereira e Maria de Lourdes Merighi Tabaquim. O objetivo do estudo foi identificar as competências para a aprendizagem da leitura e escrita entre crianças com fissura labiopalatina, caracterizando as funções perceptivas, do esquema corporal, da orientação espaço temporal, do desenvolvimento motor, da linguagem compreensiva e expressiva e do nível intelectual.

Continuando, foram os pesquisadores Evelyn Budal Porto Bovo, Ricardo Franco de Lima, Fernanda Caroline Pinto da Silva e Sylvia Maria Ciasca que nos brindaram com "Relações entre as funções executivas, fluência e compreensão leitora em escolares com dificuldades de aprendizagem". Trata-se de uma pesquisa que investigou as relações entre as funções executivas e o desempenho em fluência e compreensão de leitura de escolares do 3º ao 9º ano do Ensino Fundamental com dificuldades de aprendizagem. É possível inferir que as funções executivas contribuem com os aspectos estratégicos e metacognitivos da leitura.

Na sequência, temos o artigo "Alterações de processos fonológicos e índice de gravidade em uma amostra de fala e de escrita de escolares de ensino público e privado", de Monique Herrera Cardoso, Ana Carla Leite Romero e Simone Aparecida Capellini, que constitui um estudo que teve como meta comparar a ocorrência de processos fonológicos alterados e o índice de gravidade do transtorno fonológico em uma amostra da fala e da escrita entre escolares do 1º ao 5º ano dos ensinos público e particular.

Mais uma importante pesquisa, que visou caracterizar as condições de formação e atuação docente alinhadas aos pressupostos da Educação Inclusiva é apresentada em "O currículo, a ação e a ilegítima inclusão no Ensino Fundamental: problematizando a realidade das escolas de Alfenas/MG", que nos foi enviado por Juliana Oliveira Pessoa Araújo e Claudia Gomes. Os resultados obtidos refletem os desafios curriculares, pedagógicos e relacionais das práticas docentes, sinalizando que não apenas a formação deve ser problematizada, mas a concepção curricular que sustenta o entendimento dos processos políticos, pedagógicos e relacionais das escolas.

"As relações fraternas no contexto do autismo: um estudo descritivo", de Gleidson Diego Lopes Loureto e Soraya Ivon Ramirez Moreno, é uma pesquisa de cunho qualitativo e descritivo, que teve por objetivo caracterizar as interações sociais entre sujeitos com desenvolvimento típico e seus irmãos portadores de transtorno do espectro autista.

"Bullying escolar: revisão sistemática da literatura do período de 2009 a 2014", de Maria Teresa Barros Falcão Coelho, é um artigo de revisão que teve como objetivo analisar as pesquisas recentes publicadas no Brasil sobre o bullying no contexto escolar.

É da autoria de Camila Barbosa Riccardi León, Talita de Cassia Batista Pazeto, Gabriela Lamarca Luxo Martins, Ana Paula Prust Pereira, Alessandra Gotuzo Seabra e Natália Martins Dias o oportuno artigo "Como avaliar a escrita? Revisão de instrumentos a partir das pesquisas nacionais", que teve como foco fazer uma revisão da literatura sobre os instrumentos de avaliação da escrita a partir de pesquisas nacionais (2009-2014), identificando quais componentes tais instrumentos avaliam.

Outro artigo de revisão "Prática de jogos eletrônicos por crianças pequenas: o que dizem as pesquisas recentes?", de autoria de Larissy Alves Cotonhoto e Claudia Broetto Rossetti, fruto de uma revisão da literatura brasileira publicada na última década sobre a prática de jogos eletrônicos na primeira infância. Os resultados demonstraram uma produção escassa para a interface jogos eletrônicos e educação infantil.

"Transtornos da aprendizagem não-verbal", de Maria de Lourdes Merighi Tabaquim, discorre sobre este transtorno ainda pouco conhecido entre nós, mas que tem despertado interesse entre os psicopedagogos, devido às dificuldades e prejuízos que acarreta na aprendizagem e na vida de seus portadores.

"Importância das emoções na aprendizagem: uma abordagem neuropsicopedagógica" é um artigo escrito por Vitor da Fonseca, onde o autor aborda a importância das emoções na aprendizagem escolar, assim como as relações entre a emoção e a cognição em termos neurofuncionais, quando ambas as funções se incorporam na aprendizagem.

Um importante artigo nos foi enviado por Terezinha Richartz e Julia Eugênia Gonçalves. Trata-se do artigo "Psicopedagogia institucional: sugestões de um roteiro de intervenção no ensino superior". Segundo as autoras, a legislação brasileira prevê um sistema educacional inclusivo em todos os níveis, mas, apesar de alunos com algum tipo de transtorno ou deficiência chegarem à universidade, muitos não concluem o curso por falta de intervenções psicopedagógicas apropriadas.

Encerramos a edição de dezembro de 2016 com uma resenha: "Coleção Avaliação Neuropsicológica Cognitiva: disponibilização de instrumentos no contexto nacional", de Ágata Almeida de Araújo. Tal Coleção foi criada no intuito de preencher a lacuna relativa à carência de instrumentos de avaliação neuropsicológica, sobretudo de crianças e adolescentes, no Brasil, se caracterizando por disponibilizar instrumentos que podem ser aplicados tanto por profissionais da área clínica, quanto por profissionais da área de educação, em acordo com o entendimento de neuropsicologia enquanto área de conhecimento e atuação interdisciplinar. A contribuição dessa obra se estende à Psicopedagogia, disponibilizando aos psicopedagogos subsídios teóricos e práticos à sua atuação nos contextos clínico e escolar.

Com imenso prazer apresentamos, ainda, anexo à 102ª edição desta revista, os Anais do IV Simpósio Internacional da ABPp "Psicopedagogia por uma Sociedade Aprendente: Reflexões e Ações", realizado no último semestre da gestão 2014-2016 de Luciana Barros de Almeida.

Eu não poderia deixar de concluir este Editorial, sem os devidos agradecimentos, mas são tantas as pessoas que prefiro apenas dizer às colegas da ABPp, aos autores que sempre responderam tão prontamente ao nosso chamado, aos leitores que nos incentivaram, à nossa sempre solícita assessora de publicações, Dra. Rosangela Monteiro, que foi uma honra, um privilégio ter tido a oportunidade de trabalhar pela ABPp e pela causa que defendemos.

Me afasto da editoração desta Revista, mas permaneço junto ao Conselho Vitalício e, portanto, sempre que a ABPp precisar de mim, estarei pronta a atender.

 

Irene Maluf
Editora
2003-2016